Opinião

O PS hoje

Há 48 anos - tantos quantos os que durou o ominoso "fascismo" - o PS foi fundado na Alemanha. Mário Soares estava em Paris, exilado, mas mexia-se bem nos círculos trabalhistas e sociais-democratas europeus. Três anos antes, Mitterrand, de um nada constituído por grupúsculos insignificantes, saíra de um congresso com uma coisa na mão chamada "partido socialista".

Como Soares diria mais tarde, contrariamente aos que estavam cá e que corriam riscos, o exílio facilitava-lhe os contactos. E um partido era o "instrumento" que lhe dava a possibilidade de "falar de igual para igual" com os camaradas da Internacional Socialista. Ou seja, Soares queria aqui uma democracia "ocidentalizada" e, sobretudo, a Europa. O PS não era um fim em si mesmo. Era um meio. Sucede que, destituído o Estado Novo e encerrado o ciclo revolucionário, o PS tomou rapidamente conta do Estado entre 1976 e 1978. Até este século, os socialistas só governaram em minoria ou coligados. Soares nunca perfez qualquer legislatura como primeiro-ministro. Apenas Guterres, um socialista atípico e católico, o conseguiu. Mas o essencial, que fez do PS o grande partido oligárquico do regime, vinha "feito" de trás. No plano legislativo, por exemplo, onde António Almeida Santos pontificou anos a fio. Todavia, Sá Carneiro, Cavaco e Passos Coelho conseguiram provar que se podia governar apesar do PS e, se necessário, contra o PS. De resto, o PS impôs uma espécie de temor reverencial na sociedade política, cultural e mediática portuguesa que atingiria o seu pico na última década, com Sócrates, e, nesta, com Costa. Mesmo tendo aderido ao PS praticamente de bibe e calções, António Costa é o "herdeiro" legítimo do PS "dono" do Estado e do regime, vigário gigantesco das clientelas que apascentou desde a década de 70 com a cumplicidade de muita "Direita" negocista e interesseira. E, desde 2015, com a da extrema-esquerda e do PC. Quarenta e oito anos depois da sua criação, o PS não se confunde há muito tempo com o "instrumento" de Soares. A criatura devorou a criação. Portugal inteiro é, hoje, o instrumento do PS. Por isso, o falso "debate" que por lá corre sobre "ética" e "autocrítica", a pretexto de Sócrates, não pode passar daí. De falso. O PS transformou-se numa "escola" de mandarins e de tiranetes de opereta que, sem oposição visível e só risível, pastoreia e condiciona um país inteiro. É o mais parecido com a "República Velha", de 1910-1917, e o sucessor natural do Partido Democrático de Afonso Costa. O que está bem longe de ser um elogio.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG