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Portugal em Transe

O recandidato tardio

Há quarenta anos, nesta data, o general Ramalho Eanes foi reeleito presidente da República. Obteve um milhão de votos a mais que o seu principal adversário, o general Soares Carneiro: cerca de 3,2 milhões para um e cerca de 2,3 milhões para o outro.

Em relação às legislativas do mês de Outubro de 1980, Soares Carneiro perdeu 500 mil votos da AD e Eanes dobrou a votação da então "Frente Republicana e Socialista", o PS, no fundo. O outro milhão veio do PC, e o resto do eleitorado da AD que Soares Carneiro não conseguiu fixar. Em 1991, Soares reelegeu-se com 3,4 milhões de votos uma vez que o PSD "absoluto" de Cavaco não apresentou candidato e mandou votar Soares. Sampaio, incumbente em 2001, recolheu 2,4 milhões de votos e Cavaco, repetente em 2011, 2,2. De trás para diante, em matéria de abstenção, temos 15,8 % em 1980, 38% em 1991, 50% em 2001 e 53,5 % em 2011. Marcelo, concorrente pela primeira vez em Janeiro de 2016, chegou a PR numa eleição com cerca de 51,3% de abstenção, e com uma votação à volta dos 2,4 milhões de votos, o mesmo de Sampaio quando reeleito. Marcelo ainda não oficializou a recandidatura - a menos que o tenha feito a noite passada -, mas já está em curso o processo administrativo da recolha das sete mil e quinhentas assinaturas. Será o mais tardio dos incumbentes a apresentar-se nestes quarenta anos. Por outro lado, a sua recandidatura é, desde Março de 2016, quando tomou posse, um dos maiores segredos de Polichinelo do regime. A pandemia e esta gestão do tempo político deixam, na prática, menos de um mês para se falar em eleições presidenciais. Se Marcelo já tinha rasurado a ideia de campanha "à antiga", há cinco anos, agora será ostensivamente branca. Os motivos que não forneceu nestes anos para se recandidatar dificilmente serão absorvidos em um mês pela opinião pública. Pelo contrário, na maior parte das circunstâncias - e falo como seu eleitor - não deu nenhuns, nem para um lado nem para outro. Daí esta invisibilidade, quase clandestinidade, em que decorre tudo à volta da recandidatura. Marcelo é, está e, evidentemente, não podia desertar em plena emergência nacional. Veremos o que esta postura original vale a 24 de Janeiro, em votos e em abstenção, por comparação com os antecedentes históricos que expus. Porque o segundo mandato será com certeza diferente deste. Não por causa dos protagonistas, mas apesar deles. Como se tem visto, a realidade é impiedosa e desafecta. Marcelo vai precisar dos "marcelistas" que aguentaram estes cinco anos sem ele.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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