Opinião

Salvar o quê?

Agustina Bessa-Luís escreveu que "um mundo sem idiotas é um mundo saturado de falsa dignidade". Lembrei-me desta frase porque saturaram-nos com termos como "decência" e "dignidade" a propósito das eleições americanas.

Um marciano que aterrasse em Portugal podia julgar tratar-se de mais um "estado unido da América", longínquo e periférico, com uma linda vista-mar. Felizmente, na madrugada de domingo, ontem, portanto, o primeiro-ministro fez questão de obrigar o indigenato a descer à terra por causa do Natal. Dir-me-ão: do Natal? Então não é por causa da pandemia? É e não é. Tal qual como os restaurantes e outro comércio ou lazer nos próximos dois fins de semana. Podem abrir? Podem. As pessoas podem lá ir? Não podem, salvo se concentrarem passeio, espectáculos, compras, missas, celebrações, pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar até às 13 horas. E de semana? Em 121 concelhos, com tendência para subir este número, não podem de todo sair de casa entre as 23 horas e as 5 da manhã. Para o Governo, o vírus que gera a pandemia tem horários preferenciais. Claramente, está sobretudo activo a partir das 23 horas até às 5 da manhã, de semana, folga entre as 5 e as 23 (nas "horas normais de expediente" e de maior circulação de pessoas, bem como ao serão), e ao fim-de-semana deixa de funcionar pelas 13 horas até novamente às 5 do dia seguinte. Ou seja, o chamado dia-a-dia mantém-se indemne, nomeadamente as escolas e escolinhas onde consabidamente o vírus não está interessado. E deslocações entre concelhos? Podem fazer-se? Podem, desde que fora daquelas horas de descanso viral. Isto é, durante o dia, desde o nascer ao pôr-do-sol e, com sorte, mais um bocadinho até às 21, 22, para terem tempo de se recolher obrigatoriamente. O leitor perguntará: e o que é que isto tem a ver com o Natal? Tudo. Está em marcha o grande desígnio patriótico designado "salvar o Natal", tipo "Operação Pirâmide" da RTP, de Dezembro de 1978, em 2020. Tal qual o Pai Natal, uma coisa a fingir para enganar criancinhas e imbecis, o Governo finge que o vírus - um produto da sociabilidade desenfreada e esganiçada, sem o acautelamento elementar do afastamento social, familiar ou não - tem horas de funcionamento. Logo, se estivermos recolhidos nesse horário, nos outros estamos a salvo. E a salvo fica o Natal, que é já seguir, porque os contágios vão diminuir espantosamente com esta administração genial de horários do vírus e das pessoas. Fica salvo o Natal em Novembro com estes horários? Eles acham que fica. Fica a salvo o país em Dezembro, Janeiro, etc., por ter sido salvo em Novembro com estes horários? Eu acho que não.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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