Opinião

Sem desculpas

O presidente da República é o único cargo político unipessoal. Por consequência, como aqui escrevi na semana passada, quem ganha, ganha absolutamente. E quem perde, perde absolutamente.

Quando as candidaturas são marcadamente partidárias, esta situação pode ser embaraçosa. Há cinco anos, Marisa Matias, do Bloco, foi uma surpresa. Ontem, aconteceu-lhe, e ao Bloco, precisamente o oposto. O mesmo se diga de João Ferreira e do PC. Quanto aos partidos "novos", e respectivos candidatos, André Ventura - e o seu "Chega" - obtém um resultado que o obriga a jogar forte nas autárquicas, as próximas no calendário, para as quais não dispõe de pessoal político capaz, tal tem sido a obsessão narcísica do partido e do próprio. Se não o fizer, o balãozinho presidencial esvaziar-se-á naturalmente. Pelo contrário, Tiago Mayan Gonçalves, o homem da Iniciativa Liberal, resgatou-se bem do anonimato. No meio da tagarelice estéril destas eleições em plena pandemia, acabou por ser a única novidade. E Vitorino Silva aguentou-se muito bem na sua inconfundível dignidade cidadã, algo que a campanha assegurou do princípio ao fim. Deixei para o fim Ana Gomes por se tratar de uma candidatura atípica, entre a Esquerda e o radicalismo, abandonada à sua sorte pelo dr. Costa.

Decididamente, a antiga eurodeputada do PS não mobilizou o seu partido de origem, nem de longe, nem de perto. De facto, o PS constituiu o grande baluarte do acréscimo de votos obtidos pelo candidato vencedor em relação a 2016. Aliás, como o presidente do partido, Carlos César, fez questão de salientar, se o candidato vencedor não enfrenta uma segunda volta, ao PS o deve. E assim chegamos a Marcelo, "um tal Marcelo", como o designava por vezes Vasco Pulido Valente. Apoiado directamente pelos dois partidos da Direita parlamentar e, indirectamente, pelo PS no Governo, Marcelo parte para um segundo mandato presidencial sem desculpas. A realidade, esta mesma trágica realidade que vivemos, de consequências imprevisíveis, obrigá-lo-á a um exercício bem distinto das felizes infelicidades do mandato "alegre" que cessa agora.

Acabou o recreio e a autocomplacência. O desvio de votos que, em princípio, seriam dele para a Direita dele, exigem-lhe alguma reflexão e menos velocidade de cruzeiro. Dito isto, a pobre Direita parlamentar que reclama vitória não se iluda. Não espere que façam por ela o que apenas ela pode fazer.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

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