Opinião

Sem retorno

A pandemia avançou monstruosamente em Janeiro. As mortes covid, e não covid, também. O próprio Parlamento cedeu à cultura individualista da morte. E o Governo exibiu uma absoluta falta de coordenação e de comando políticos.

Andou, e anda, a reboque dos acontecimentos. Perdeu o pé na realidade. As intervenções autocomplacentes da ministra da Saúde são inaceitáveis e apenas escondem a sua manifesta inabilidade, política ou outra. A apresentação, autoritária e sem nexo, das "medidas" no campo da Educação por causa do encerramento das escolas, revelou ao país - como se ainda fosse preciso - o pior ministro da tutela de que existe memória recente.

A berraria histérica do titular da Administração Interna aquando do debate parlamentar de mais um estado de emergência, a par com a colega da Saúde, foi mais um sintoma do descontrolo geral. Tal como o decretar absurdo de coimas, a aplicar imediatamente pelas autoridades policiais em plena rua, quando se sabe que é legítima a recusa legal de pagamentos desses.

De dentro para fora, a ministra da Justiça apareceu no Parlamento Europeu a fazer uma tristíssima figura por causa do procurador indicado para a Procuradoria Europeia. A da Cultura, como a sumarizou Manuel Maria Carrilho, é nada. E podia prosseguir na demonstração de que o Governo somente "está" governo, exangue e praticamente nulo perante a presente situação de emergência pública. Tem poder, não governa. Era expectável.

A coisa ainda passou na Primavera, mas rapidamente descambou para o habitual registo das "facilidades" com que Costa e os seus apreciam tratar de tudo. Como é que M. Temido tem agora a lata de falar em "união nacional", e em "crimes" contra essa "união", quando tantas vezes se comporta como uma inimputável política? Ou que dizer do "coordenador" do plano ziguezagueante de vacinação - a desculpar as "batotas" que gente amoral dos pequenos e grandes poderes político-administrativos perpetraram, e andam a perpetrar, contornando um "plano", só nominalmente plano, quanto a prioridades na vacinação -, que ataca, a despropósito, quase meio milhão de portugueses, "culpando-os" de maledicência e má-fé, logo ele que anda a toque de caixa, sem qualquer autoridade ou autonomia, da propaganda do PS e do Governo? Como pode permanecer em funções? Chegámos a um ponto "orwelliano" sem retorno. "Os animais diante da janela olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos, e novamente dos porcos para os homens; mas já era impossível distingui-los uns dos outros".

*Jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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