O Jogo ao Vivo

Opinião

Sob suspeita

Nada acontece por acaso. Os últimos dias públicos foram marcados por duas coisas. Uma, mais "antiga", a persistência da pandemia que, a cada dia que passa, infecta mais cidadãos pelo aumento inevitável da sociabilidade e da mobilidade.

Outra, ainda mais "antiga", a promiscuidade entre a política e a bola. Neste assunto, não existem propriamente virtuosos. Tudo é consentido e procurado, procurado e consentido. Nunca entendi, por exemplo, como é que se permite a presença de representantes de órgãos de soberania ou de titulares da acção penal nos órgãos sociais de clubes desportivos onde é preponderante a modalidade futebol. Aplico idêntica incompreensão à situação de comentadores, designadamente em dispositivos de comunicação social audiovisual, das mesmas pessoas. Juízes, desembargadores ou colendos em tribunais superiores, membros do Governo ou deputados não deviam aparecer em nada disto. Não porque seja ilegal ou ilegítimo, mas porque não é possível deixar essas qualidades profissionais ou políticas à porta dos clubes ou nos balneários. Quer eles queiram, quer não, não é apesar dessas funções que lá estão. Estão por causa delas. Quando as procuram ou aceitam, sabem perfeitamente que é porque são isto ou aquilo, circunstancial ou profissionalmente, que os querem lá. Também funciona ao contrário. É por serem políticos no activo que o presidente de um clube de futebol os dispensou da "honra" de os ter na sua comissão de recandidatura. Se não fossem, não os dispensava nem eles saíam pela porta do cavalo depois de terem afirmado publicamente que uma coisa era uma coisa, e outra coisa era outra coisa. Afinal, era tudo a mesma coisa. Já a acusação de elementos da magistratura, em devido processo judicial, por vários crimes relacionados com o exercício desse magistério - e no qual estão paralelamente acusados dirigentes futebolísticos - lança uma gravíssima suspeita sobre a Justiça portuguesa, como foi apontado pelo bastonário da Ordem dos Advogados. Está em causa a saúde moral da Justiça e a própria qualidade desta democracia. Não há, pois, lugar para "contradições íntimas" ou estados de alma, senhora ministra da Justiça. O país chega ao Outono doente e o regime sob suspeita. Mal apetrechado de instituições, de elites e de servidores públicos capazes, realistas e austeros, Portugal não se encontra num caminho sequer razoável para dominar as dificuldades em curso, quanto mais as que aí vêm. Como dizia o outro, a gente puxa mas isto não dá mais.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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