Portugal em transe

Solidariedade e deserção

Solidariedade e deserção

O "processo" pandémico, como não se cansam de exprimir as "autoridades", é "dinâmico". O que exige delas uma "dinâmica" bem mais robusta que a seguida, e uma espécie de compromisso nacional, cidadão e solidário, que renuncie sem hesitações ao egoísmo e à superficialidade irresponsável e mal fundamentada.

Foi lamentavelmente já neste contexto que o senhor presidente da República se amesendou na sua casa de Cascais por ter recebido em Belém, uns dias antes da deserção, uns miúdos de Felgueiras. Nada contra. Mas se era para servir de exemplo, para quê, pouco mais de 24 horas depois de recolhimento voluntário, aquela improvável aparição na balaustrada da residência, de mãos nos bolsos, sempre na primeira pessoa, com detalhes patéticos a seguir transmitidos em directo, num telejornal, quanto ao trem de vida prosseguido portas adentro?

O "afecto" fechou-se a sete chaves com medo, mais de quatro anos de distribuição sem parcimónia, a propósito e a despropósito, com uma convicção que a partir de agora fica mais que duvidosa? Como se não bastasse, Marcelo ainda arranjou um bocado para falar com a sua correspondente permanente no "Expresso" a quem, há dois dias, confessou, e passo a citar, "um gozo fininho por estar a fazer tudo" sozinho em casa.

Na biografia, Vítor Matos conta às tantas que, em miúdo, Marcelo corria por vezes ao quarto da avó, em Lisboa, para lhe abanar a cama a fingir que era um tremor de terra. A diferença é que, crescidinho, escolheu ficar debaixo dela. Politicamente, este episódio é desastroso. Costa, mal ou bem, teve de se desenvencilhar e aparecer quase diariamente como lhe competia. Os seus fracos ajudantes, políticos e administrativos, também. O Parlamento podia fechar que não se dava por nada.

Mas o chefe de Estado é o chefe de Estado. E deve ser exemplar quando se trata de nos erguermos todos contra o medo. Não se pode esconder na despensa ou usar plataformas de comunicação social pública ou privada para contar as suas desventuras na cozinha ou na passagem da roupa a ferro.

Como seu eleitor, tenho o dever e o direito de criticar, sem contemplações, esta frivolidade sem nexo com que terá de ser confrontado na recandidatura. Em Abril de 1993, Vasco Pulido Valente escreveu sobre Marcelo, na revista "K", o seguinte que se mantém actual: "Preservou até hoje a sua infância, arranjou sempre maneira de virar o barco, mesmo, ou sobretudo, quando ele próprio ia lá dentro". Não se enganou.

*Jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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