Opinião

Vão-se catar

Conheci o Luís Rosa, há dez anos, quando integrei o gabinete do ministro Miguel Relvas. Terá lá ido recolher elementos para algum artigo, e desde aí tenho acompanhado sempre a sua actividade profissional com atenção. Ficou-me a impressão de uma indisputável seriedade na investigação, da recusa altamente deontológica de "fazer fretes" ou de "agradar", do cuidado posto em tudo o que afirma e escreve, fundamentando criticamente, como deve ser, o trabalho jornalístico que se preza. Ainda estou a ler o seu livro "O governador" (D. Quixote), e nada do que até aqui tenho lido desforça o que disse antes. Na apresentação, Luís Marques Mendes, solitário - porque Francisco Assis, também convidado para o efeito, tremelicou de temor reverencial diante do chefe do partido dele e do governo, e cobardemente ausentou-se -, produziu um notável texto, não apenas de análise da obra e do respectivo contexto político e governativo (o mandato de Carlos Costa como governador do Banco de Portugal no período complexo de 2010 a 2020), como de "resumo" do estado da arte a que chegámos, e como lá chegámos, em matéria económica e de sistema financeiro. Parece que aos principais banqueiros portugueses lhes repugna ler o livro, como afirmaram a alguns órgãos de comunicação social, com a mesma sobranceria palonça que guiou os seus antecessores, entre 2009 e 2011, para não andar mais para trás, até ao desastre anunciado subsequente, e cujo cume se atingiu em 2014 com a estrondosa queda do BES. Quanto ao regime, reagiu em modo virginal ofendido o primeiro-ministro, ameaçando o antigo governador do banco central com um processo judicial - um péssimo caminho, como recordou o ex-bastonário Rogério Alves na televisão, este de "judicializar" a política, e logo vindo de quem enche a boca com "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça". E a seguir, como de costume, Marcelo veio colocar a mãozinha impotente debaixo de António Costa a pretexto da sua magnífica intervenção na questão do BPI, a "mais difícil" (sic) do seu não menos glorioso mandato, agora coroado com as abstrusas declarações sobre o Qatar e os direitos humanos, onde meteu as referidas mãos pelos pés. Esta gente despreza o escrutínio democrático e a prestação de contas que é o que Carlos Costa, mal ou bem, deixa feito no livro do Luís. Nunca esteve, nem estará, acima de crítica pelo que fez ou deixou de fazer. Mas ver agentes políticos democráticos a falar em "traições" e "infidelidades" porque se revisita publicamente a história diz mais sobre esses falsos moralistas do que sobre quem se expõe com tudo o que isso acarreta num país moralmente pequenino e de curta memória. Vão-se catar.

*Jurista

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

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