Opinião

A Web Summit não é uma pileca

A Web Summit não é uma pileca

De que adianta comprar um cavalo puro-sangue reprodutor, desses mesmo caros; com motor Ferrari, sela Louis Vuitton, arreios Hermes, bridão Vogue, cabeçada Monclair e esporas Pini Farini, para depois o deixar morrer à fome?

De que serve inscrever tal atleta no melhor Circuito Mundial de Atrelados, na Convenção Internacional de Dressage, na Pole Position dos Saltos e numa Box de ouro nas corridas em Ascot, se depois o bicho nem se consegue mexer?

À primeira vista pareceria preferível ser dono de uma pileca mais modesta, sem grande glamour nos escaparates, coisa mais Nike, Adidas ou Zara, mas conseguir alimentá-la o suficiente para a conseguir pôr a correr. Quem sabe um dia poderia chegar a alazão!

Naturalmente a metáfora equina surge-me aplicada à tecnologia e à inovação na semana em que a Web Summit foi de novo on-site em vez de ser online; e fez outra vez de Lisboa a capital universal das startups.

Ter a Web Summit em Portugal é bom. Revela ambição. Mas já que Portugal pagou tão caro - 11 milhões de euros - para convencer o empreendedor Paddy Cosgrave a parquear a mais inovadora barraca junto ao Tejo, que pelo menos lhe dê bom uso.

Fazer aterrar todos os anos em Lisboa os melhores inovadores, os maiores investidores e os mais populares oradores, só para fazerem festas ao ego do cuidador (do cavalo) é muita mau para a nossa reputação.

Atraí-los cá com uma cenoura bestial e depois dar-lhes um arraial de porrada fiscal e um festival de burocracia transcendental é um péssimo modelo de negócio.

PUB

É verdade que um cavalo barato sai caro. Mas é mais verdade ainda que o caro só compensa quando se usa o cavalo. Se é para o condenar a definhar por inanição, escolha-se animal mais em conta.

*Especialista em Media Intelligence

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG