Opinião

Dubai

Arquétipo feérico das mil e uma noites, forjada a ferro e aço, movida por carros de alta vaidade e a moral dos milhões, sempre inundada de dólares, euros e bitcoins - e todas as demais representações do capital - ela convoca os seus visitantes a participar num seu extasiante vaudeville.

Se há um lugar onde o dinheiro é mesmo de plástico, este é esse lugar. Aqui tudo brilha, sobretudo o brilho. E até a noite, insustentavelmente iluminada, cresce devastadoramente sem nunca parar, inspirando sempre, até ao próximo crash da bolsa sem valores; da economia, da civilização ou nenhum deles; de acordo com o rigor maldito dos especuladores globais.

Os seus arranha-céus de vidro espelhado são a metáfora perfeita para aquelas "leis" que determinam como canónico o crescimento permanente da economia humana. Como se todos estivéssemos destinados a rebentar, vítimas de uma inadiável explosão de superavits, olhando serenamente o horizonte sustentável, quietos e sorrindo, sem qualquer pudor.

A cidade vive embriagada numa lei seca de faz de conta, ela se enfurece verticalmente a cada torre, dessas que brotam do chão como concretos cogumelos, uns mais venenosos que outros, outros doces sem ter fim, todos galgando terra ao deserto, todos a trocar areia por concreto, como quem vende sonhos e água doce.

Geneticamente predestinada, ela extinguir-se-á ciclicamente como a mesma certeza com que a areia se cristaliza em rosas de rocha; da mesma beleza inodora e sem cor que decora as fachadas dos edifícios públicos. Nem precisava de a ter, porque ela já a é. Uma permanente Exposição Universal. Uma has been to be. Uma atriz beata, uma diva caricata, ao mesmo tempo velha e jovem, de Hollywood e Bollywood. Toda Marlene, toda Bergman. Sem Bogart, nem garbo.

Especialista em Media Intelligence

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