Amo a escrita do José Saramago. Ele é tão bom que ensinei os meus filhos a gostar de música e a entender a dança lendo-lhes os seus livros em voz alta. Faz hoje 10 anos que ele morreu.
O "Memorial do convento" é talvez o melhor livro de sempre escrito em língua portuguesa e a "Viagem do elefante" é o único que conheço onde a letras que preenchem o papel são efetivamente som e movimento. Pura magia!
Mas nunca conheci o Saramago em vida, nunca o vi, nem nunca fui a nenhum sítio onde ele estivesse porque tive medo que me acontecesse a mesma coisa de que muita gente se queixa quando, finalmente, encontra cara a cara a sua estrela favorita.
Uma vez conheci o Rui Reininho numa entrevista que lhe fiz, em Coimbra, da Rádio Universidade, no início da década de 90; ele foi tão maldisposto (e mal-educado) comigo que estive 10 anos sem lhe ouvir uma música. Fui eu que fiquei a perder.
A minha mãe um dia conheceu a Amália Rodrigues e teve uma deceção tão grande que ficámos proibidos de falar do povo que lavava no rio e de frequentar a casa da Mariquinhas para toda a vida. Ficámos a perder. A todos nós isto aconteceu, mais ou menos vezes, sempre que o acaso, ou um bilhete mais caro, nos colocou face a face com aqueles personagens que consideramos maiores que a vida.
Foi por isso que daí para a frente nunca mais quis conhecer os meus heróis. Em todas as ocasiões que a vida me deu (e dá) fujo disso. É demasiado perigoso.
Ainda por cima o José Saramago era um tipo com uma fama terrível de mau feitio, vaidade absurda e características éticas duvidosas. Mas como nunca o vi, tenho a certeza que era tudo inveja.
Faz hoje 10 anos que talvez ele se tenha encontrado com Deus. Mas também não quero saber.
*Especialista em Media Intelligence
