Opinião

Viva o futebol!

Quando se escreve sobre futebol corre-se logo o risco de ser vaiado e insultado. Mas, afinal, a vaia e o insulto são das parcelas mais importantes na função social da "bola".

Qualquer arena que se preze serve para aliviar a pressão acumulada que as dificuldades da vida provocam no povo, contribuído assim - decisivamente - para a paz social. Esse é o papel fundamental do futebol, ainda mais importante em tempos complicados como estes.

Quando a pandemia tirou o discernimento às pessoas, e sobretudo aos políticos que hoje enfrentam maiores pressões da opinião publica, o regresso do futebol (e das pessoas) aos estádios, foi mais importante para o povo que o fim (ou a continuação) de qualquer estado de emergência.

Essa função do futebol, ser uma versão moderna (e às vezes até bastante civilizada) dessa válvula de escape que já foi o Circo romano - Ave Cesar morituri te salutam - serve de pára-choques à sociedade, contribuindo decisivamente para absorver e evitar maiores convulsões.

Veja-se a festa que os adeptos do Sporting Clube de Portugal fizeram quando, em maio, festejaram o título aglomerando-se descontroladamente nas ruas de Lisboa. A festa, apesar de tudo até foi tolerada apenas porque se tratava de futebol. Fosse outra coisa qualquer - um Nós Alive, a festa do Avante ou uma manife da CGTP - o coro das críticas seria indescritível.

Por isso o futebol é tão importante. Porque durante 90 minutos (e demais comentários), todos podem uivar impunemente definitivos impropérios contra inimigos temporários. Todos os elementos da sociedade no mesmo nível e na mesma página. Todos (des)conhecedores profundos do mesmo assunto. Todos sabendo quem são os amigos e os inimigos. Uma simplicidade tão grande que nos alivia.

Esta é a razão para o futebol ser o assunto do ano. Porque sem o futebol - apesar dos seus indescritíveis dirigentes, inenarráveis profetas, dissimulados Jesus, infâmias no Marquês e indignações de Adão - provavelmente ainda estávamos todos fechados em casa a contar mortos.

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E como se não bastasse, o meu Sporting foi campeão. Viva o futebol!

*Especialista em Media Intelligence

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