Opinião

A fadiga tem muitas faces

A fadiga tem muitas faces

A OMS alertou para a subida da fadiga pandémica que pode atingir até 60% dos membros de certos grupos, traduzida por uma apatia que faz baixar a guarda e desleixar as estratégias preventivas.

Comparemos Primavera e Outono, o rebentar da flor e o cair da folha. Alguém defenderá que a chegada da pandemia e o confinamento que se seguiu foram fáceis de digerir? Mas o discurso oficial e o nosso desejo construíram um cenário a prazo, "sofra agora e ressuscite depois, mesmo que não saibamos definir o novo normal". Os profissionais de saúde eram guerreiros que teriam o merecido repouso, poucas vozes e testemunhos se levantavam contra a narrativa de "todos no mesmo barco", os avisos sobre uma segunda vaga outonal não estrangulavam a satisfação pelos nascentes dias de sol ou a esperança de a sentir "apenas" como uma réplica do terramoto inicial.

E ela veio. Surpreendentemente, até os que para ela nos tinham alertado se declararam... surpreendidos! O que não tranquilizou as pessoas, sobretudo porque foi evidente que algumas das (boas) medidas tomadas deveriam ter sido planeadas durante o período estival e a outras faltava coerência ou explicação clara. A fadiga regressou, mas era diferente. A seguir ao Outono chegará o Inverno, que não costuma ser meigo em termos de saúde. O túnel parece mais longo e a luzinha que lhe decreta o fim mais periclitante. O cansaço e alguma banalização do risco partilham a boca de cena com o desespero de muitos, que temem por emprego, negócio, habitação; futuro.

A tolerância sofre de anemia. Tomemos uma frase do PM: "Se os portugueses estão cansados, imaginem os profissionais de saúde". Ouvi alguns comentarem que não aspiram a ganhar o campeonato do cansaço, mas a ter melhores condições de trabalho; e profissionais de outras áreas murmurarem que preferiam estar exaustos e não a caminho da falência.

A fadiga tem muitas faces, a agressividade é uma. Não me refiro a indivíduos ou grupos que aproveitam o clima pesado para alimentarem agendas políticas. Falo do cidadão comum - mais triste, sedento do toque, apreensivo quanto ao futuro, namorando a contragosto a solidão.

Velha frase reaparece, "ando com os nervos à flor da pele". Receio que neste momento nos assemelhemos a cactos, espinhos e flores coabitam, mas tendem a ser os primeiros a vir à porta. Recomendo mezinha caseira - abrir sorriso e mãos, o Outro saberá que vimos em paz e aceitará o respectivo cachimbo.

Mas para muitos portugueses o Outro não tem rosto, chama-se desemprego, precariedade ou pobreza e exibe a sensibilidade de um rolo compressor. A revolta enrouquece nas ruas e volta para casa de mãos a abanar. Esse, é o verdadeiro cansaço que não conseguimos imaginar.

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

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