Opinião

Não devia ser necessário...

Não devia ser necessário...

...uma mulher fustigada pela dor da perda do seu homem pedir privacidade e desmentir mil e uma versões sobre causas, trajetos de vida, situação financeira, etc... Em plenos rituais de despedida, com um luto pela frente, os dos filhos para escorar e uma família a manter unida sob uma asa fragilizada.

Mas foi. Porque o "novo normal" é irmão gémeo do antigo e alguns média alimentam-se de revelações bombásticas, holofotes que não dormem, descoberta de mais um testemunho; mais um desmentido; mais adrenalina. E ao escrever "alimentam-se" fui hipócrita, a verdade é que nos alimentam; ninguém publica o que não acarreta audiências, é o nosso voyeurismo a tornar rentável este frenesim pretensamente informativo. Abafados por esse tsunami, receio que alguns artigos de especialistas sobre a problemática do suicídio não merecessem a atenção devida por parte da população geral.

Que em breve precisará de um novo estímulo e de outros buracos de fechadura escancarados, as palavras de um espantoso poema de Brel assombram-me: "Au suivant, au suivant"...

Os meus colegas têm razão, é necessário dar ao suicídio a importância que infelizmente lhe cabe - cerca de 800 mil casos por ano, 80% dos quais em países de baixos ou médios rendimentos, terceira causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 19 anos. É necessário estabelecer a diferença entre suicídios e tentativas, salientando a maior frequência dos primeiros nos homens e das segundas nas mulheres e nos adolescentes, mas sem lhes retirar significado encolhendo os ombros e rotulando-os de "apelativos". Ou os dicionários mudaram de opinião e apelar já não significa pedir ajuda? É necessário falar de patologias psiquiátricas como a depressão, a bipolaridade ou o alcoolismo. É necessário delinear estratégias de prevenção globais e precoces que incluam diretrizes para estilos de informação responsáveis e combatam a discriminação de que são vítimas os problemas de saúde mental, discriminação essa que torna mais difícil o pedido de ajuda por parte de alguém que se debate com ideias autodestrutivas.

Regresso ao poema de Brel e a dois versos iluminados que merecem reflexão - "Moi j'aurais bien aimé un peu plus de tendresse/Ou alors un sourire ou bien avoir le temps"... É necessária mais ternura, mais sorrisos e mais tempo para acolher e escutar o Outro, na esperança de fazer a diferença e empurrar alguém para o espelho - "não consigo sair disto sozinho".

Como é necessária sensibilidade para impedir o agravamento do fardo de quem sobrevive, se o suicídio acontece mesmo. Por exemplo, determinada mãe com cinco filhos...

*Psiquiatra

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