Um psiquiatra no vale

Por eles e por nós

Ao Júlio Resende e aos outros

Não é preciso ser Nostradamus reencarnado para adivinhar que Abril não trará paz de espírito e bolsos compostos aos agentes culturais. Há demasiadas variáveis em jogo, que fazem temer retoma feita de avanços, recuos e credos nas bocas. Acresce que os apoios prometidos - e devidos... - tardam em chegar e não há futuro sólido sem pagar contas passadas e presentes.

Receio pelo bem-estar das pessoas e pela anemia de produção cultural, os meus livros, discos e programas de televisão favoritos, de quando em vez, empurram-me porta fora - "lembras-te de Kundera? A vida não é aqui! Sacode a preguiça e goza um concerto ou uma peça de teatro ao vivo e a cores". E eu saio a resmungar, mas volto de coração cheio.

No meu caso, à preocupação solidária e interesseira junta-se a gratidão. Quando o Júlio Resende me desafiou para casarmos música, poesia e pintura e nos lançarmos à estrada foi de uma enorme generosidade. Ele sabia que mais pessoas acorreriam a ouvir-lhe o talento a solo do que com um apêndice a dobrar os setenta virgem naquelas lides. Sim, passei a vida em "palcos", mas em conferências e debates, jamais me atrevera a dizer um poema abraçado ao jazz em voz alta, muito menos improvisar a partir dele! O Júlio fê-lo por espírito de aventura e amizade, presenteou-me com memórias gratas que guardo no bolso da camisa; junto ao coração.

Mas o seu carinho não chegaria sem o de outros. As gentes das luzes, do som, da produção, os anfitriões que nos receberam de braços abertos em teatros lindos de morrer pelo país fora, longe dos grandes centros e perto de grandes dificuldades, mas teimando, teimando sempre. Porque as pessoas agradecem que lhes melhorem os acessos rodoviários, mas também exigem alimento fresco para alma e gosto e não apenas ecos longínquos.

É verdade, preocupo-me com pessoas reais que me atrevo a declarar amigas, com quem partilhei restaurantes e hotéis, que segredavam dos bastidores os resultados do Benfica e a quem confiava pergunta que exige total franqueza - "que tal correu?". E outras, que se nos juntaram de surpresa em palco, como o Salvador Sobral, o Valter Hugo Mãe e o meu filho João. Só em teoria estávamos em pé de igualdade; eles são artistas, eu um intruso agradecido.

Ferré - "Ils sont le clair matin dans vos nuits de tempêtes/ils sont le soleil noir de vos étés d"hiver/ils chantent dans la nuit à vos tempes muettes/ils plantent la Folie au fond de vos galères!/ Les artistes...

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Quem tanto nos dá não deveria ser obrigado a quase mendigar a sobrevivência. A deles, em termos literais. Mas também a nossa, sedentos que estamos de esperança, essa loucura que permite suportar o sofrimento.

Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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