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Uma questão de botões

Uma questão de botões

Há dias, a comissária europeia dos Assuntos Internos disse que confiava estar Portugal "a tratar apropriadamente a horrível violação de direitos humanos" acontecida no aeroporto de Lisboa. Acrescentou pensar que "haverá algumas mudanças na liderança e nos regulamentos". E premiu um botão de alarme... nos corredores do poder.

A 9 de Dezembro soube da demissão da directora do SEF. Revisitei um artigo do "Público" de 16 de Novembro com as suas declarações à RTP, dizendo estarmos na presença de "uma situação de tortura evidente". Mas demitir-se "não iria introduzir nenhuma mudança positiva" para que os acontecimentos não fossem esquecidos e jamais se repetissem.

Mudou de ideias. Confortando a líder parlamentar do PS, que considerou a demissão "tardia" e o seu silêncio de meses revelador de "pouco cuidado". Quanto ao ministro, considerou que ela "tinha feito bem em cessar funções". Dúvida legítima - se o partido do Governo e o ministro da tutela tinham essa opinião, porque não sugeriram há muito uma epifania demissionária, evitando este cenário de canhestra estratégia de redução de danos?

O ministro esteve perto de assumir o estatuto de cavaleiro andante solitário em defesa da sua dama, os Direitos Humanos, em que catacumbas se esconderam comentadores e Oposição? Sublinhou que reunira com a embaixadora da Ucrânia para lhe apresentar condolências e assegurar o compromisso do Estado português no apuramento de todos os factos e na tomada de medidas que evitem a repetição de situações semelhantes. Esta semana entregou-lhe uma carta para a viúva, assegurando o pagamento de uma indemnização.

O presidente da República, sibilino, afirmou que "se não funciona este SEF, não serve... temos de avaliar se os protagonistas que deram corpo ao sistema que falhou podem ser os mesmos no período seguinte". "Os" protagonistas...

Interrogo os "meus" botões. Desaparecem as pessoas e o seu sofrimento quando os estados dialogam entre si? Porque pagou esta viúva a trasladação do corpo de quem faleceu à guarda do Estado português? Porque só agora se desencadeia o processo de indemnização? E porque não houve uma única consciência a sentir a obrigação moral de pegar num telefone e falar a esta mulher? Sobretudo sabendo nós que muitos políticos colonizam os holofotes destinados a desportistas, agentes culturais ou vítimas de desgraças domésticas.

O dicionário diz de botão que também significa flor antes de desabrochar. Esta actividade frenética não desabrochou espontaneamente, pegou de empurrão; como os carros, quando a bateria cede aos achaques da idade.

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Talvez seja mais seguro para todos pedir à comissária europeia dos Assuntos Internos que nos visite com regularidade.

Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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