Opinião

Campeões olímpicos e campeões da gelatina

Campeões olímpicos e campeões da gelatina

Um dos passatempos que me dão mais gozo no verão, e que normalmente coincide com o período de férias, é, de quatro em quatro anos (ou cinco, desta vez) assistir aos Jogos Olímpicos (JO).

Dentro das modalidades olímpicas, gosto particularmente dos saltos para a água e da ginástica, mas acompanho de perto todos os atletas portugueses. Nos últimos cem anos, nunca os JO interromperam a sua frequência quadrienal, à exceção do período das duas guerras mundiais. Com um ano de atraso, por força da pandemia, os JO voltam finalmente a animar o verão, num cenário ainda atípico, sem o entusiasmo e o calor do público que habitualmente dão alma ao ambiente desportivo e de união dos povos, tão característico desta competição.

Para os atletas, a participação nos JO representa a consagração da excelência, do trabalho, da dedicação e do sacrifício que investem, todos os dias, na preparação, para depois brilharem com a sua técnica num espírito de contínua superação. Só os melhores chegam ao palco maior do desporto. Muitas vezes, o sacrifício que a excelência impõe não é gratuito para os atletas. E também não é possível ganhar sempre. No entanto, em Portugal, gostamos de cobrar sempre o máximo aos nossos atletas, esquecendo muitas vezes todo os constrangimentos que cada um deles enfrenta. Achamos quase sempre que os nossos atletas nunca fazem o suficiente, nunca são suficientemente bons. Uma exigência que, infelizmente, não colocamos sempre e nas diversas áreas de atuação.

Na verdade, parece que colocamos uma exigência quase divinal sobre os nossos atletas, mas depois ficamos numa apatia face às lideranças políticas e sociais do país. Gostamos de nos queixar, mas não promovemos de facto a mudança.

Queremos medalhas, mas não nos indignamos com sermos um país pobre; temos uma escola pública cada vez mais depauperada; 60% dos portugueses vivem, com menos de 800 euros por mês; em matéria de pobreza energética, Portugal é dos piores países da UE; temos os combustíveis mais caros da Europa; o investimento das empresas portuguesas em inovação não chega sequer a metade da média europeia; o Governo anuncia sucessivamente falsos investimentos na ferrovia, quando nem comboios nem maquinistas há para os poucos e maltratados comboios que temos; o país vive num pântano económico há 20 anos. Queremos medalhas e excelência, mas o ministro Cabrita - baluarte de reconhecida incompetência! - ainda é ministro. Queremos tudo mas adiamos reformas. Gastamos dinheiro, mas não investimos no futuro.

E o grave de tudo isto é o país aceitar placidamente a sua circunstância. Preferimos a queixa, à mudança. Não se confia nos políticos, mas também não se lhes exige mais. O queixume generalizado acaba com o povo a votar em massa no PS que promove (e vive) deste Estado gelatinoso, parece que mexe, mas não sai do sítio.

Termino este texto com um agradecimento aos atletas portugueses por todo o trabalho e empenho, e pelo orgulho imenso que nos dão representando sempre o país ao mais alto nível. Obrigada.

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*Eurodeputada do PSD

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