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Opinião

Palmas, sra. ministra

Há, por aí, uma grande confusão com o dicionário de português. Possivelmente desde o ano passado, as palavras "resiliência" ou "resiliente" passaram a fazer parte do nosso dia a dia, numa utilização de tal maneira frequente, e não raras vezes desadequada, que lhes tira o sentido.

Talvez por isso seja importante primeiro recuarmos à origem, à etimologia da palavra. "Resiliência" provém do latim resilio que significa ressaltar, voltar para trás, a capacidade de voltar a um estado anterior, ou, em sentido figurado, recuperar de adversidades.

Posto isto, as declarações desta semana da ministra da Saúde, Marta Temido, sobre a necessidade de maior resiliência dos profissionais de saúde, foram profundamente injustas e infelizes. O mesmo Governo que tecia loas quando exigia aos médicos sacrifícios durante o pico da pandemia, agora, com a arrogância de quem perdeu a noção da realidade, acusa-os de cederem facilmente à fadiga.

Igualmente grave é o próprio PS achar as declarações ajustadas e, numa defesa típica de claque, contra-atacar acusando as críticas de "aproveitamento abusivo". Ou seja, é um recado para o espaço público: críticas que visem a família socialista são sempre um aproveitamento político qualquer. Pergunto se já nos teremos esquecido dos dias em que pelas 20 horas saíamos à janela para aplaudir os nossos heróis sem capa, aqueles que todos os dias se superam, se penalizam, se sacrificam, para salvar e cuidar das nossas vidas?

Temos um SNS exausto e com situações gravíssimas de rutura e demissões em tantos hospitais. Os (repetidos) anúncios do Governo de mais financiamento para o SNS não se verificam na prática e reflexo disso é o crescimento da procura de soluções de seguros de saúde privados pelos portugueses. Na espinha dorsal do SNS está o seu capital humano, médicos, enfermeiros e assistentes operacionais. A falta de recursos e condições dados aos profissionais no setor público, os tempos de espera têm levado a que cada vez mais e mais portugueses optem por procurar solução no setor privado. Este efeito nota-se, em particular, no aumento do número de portugueses a recorrer a seguros de saúde. O período dos últimos dois governo do PS foi o período em que mais aumentou o número destes seguros em Portugal, e tal verifica-se independentemente da pandemia. Na verdade, ninguém empurrou mais os portugueses para os privados na saúde que a geringonça.

É verdade que não somos perfeitos. Erramos. Porém, as declarações da ministra Marta Temido foram enquadradas e tinham um propósito. O confuso "pedido de desculpas" que se seguiu não substitui as declarações. O Ministério da Saúde precisa, sim, urgentemente de alguém que respeite e trabalhe com todos os profissionais na construção de um SNS sólido, eficaz e de qualidade.

Os profissionais de saúde não só têm de lutar contra a pandemia do coronavírus como também de resistir às palavras de um Governo ingrato.

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*Eurodeputada do PSD

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