Opinião

Abstenção de olhos fechados

Abstenção de olhos fechados

As negociações para a aprovação do Orçamento do Estado, seja através do voto a favor ou pela abstenção, assemelham-se ao momento em que se escolhe o melhor filtro, o melhor efeito para publicar uma fotografia no Instagram.

E o objetivo também é mais ou menos o mesmo: encontrar reconhecimento entre os seguidores e, se possível, chegar a mais pessoas, neste caso, eleitores.

É quase tradição que, entre a abstenção e o voto favorável de um partido na Oposição, os orçamentos sejam aprovados, mesmo que se tenha de colocar um queijo limiano na fotografia. Fica, portanto, difícil para o comum do eleitor perceber a hesitação dos partidos em esclarecer o seu sentido de voto no Orçamento. Os partidos estão tão eclipsados com a sua imagem social que os argumentos expostos aos microfones das televisões ficam muitas vezes longe dos valores que apregoam nos seus programas eleitorais e nas suas promessas.

Infelizmente, a nossa política também está como as redes sociais. Há muitas fotografias de tapetes bonitos e repletos de efeitos, mas não se vê o que está por baixo.

Apesar do caderno de encargos negociado e anunciado pelos abstencionistas, o Orçamento do Estado será hoje aprovado para que ninguém fique muito mal na fotografia, como, aliás, ficou a deputada única do Livre que, depois de alguma acalmia na exposição mediática, voltou a ser notícia quando tentou proibir a publicação de uma foto oficial da Comissão do Ambiente, da qual faz parte, porque ficou de olhos fechados. Não teve sucesso, é verdade. Mas depois da polémica abstenção num voto de condenação a uma nova agressão israelita a Gaza, a deputada do Livre lá conseguiu recuperar do apagão mediático.

Vamos lá ver se a fotografia do Orçamento do Estado nos deixa a todos de olhos mais abertos.

*DIRETOR-ADJUNTO

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