Opinião

Cidadania digital sem Estado

Cidadania digital sem Estado

Amanhã é o Dia Mundial das Redes Sociais. Se no passado foi importante avaliar o perigo do excesso do seu uso, no presente faz sentido questionar se as democracias se ajustaram à cidadania digital.

Não são só os fenómenos Donald Trump ou as milícias digitais de Jair Bolsonaro que merecem reflexão. Os estados necessitam de reformar as suas práticas online, sob pena do fosso entre eleitos e eleitores aumentar. Em Portugal, 95% dos cidadãos fazem login numa rede social uma vez por dia e, naturalmente, ninguém ficou com dúvidas que as redes foram uma mais-valia durante o período de confinamento. Mais do que afastar quem está perto, como tantas vezes são acusadas, aproximaram quem está longe. Tornaram-se ainda mais transversais. Fizeram com que o isolamento fosse menos penoso para muitos idosos. Foram ainda fundamentais no networking, aliadas na "escola em casa" e, em muitos casos, a única oportunidade para os negócios e para as manifestações culturais. Se já eram ferramentas poderosas, tornaram-se engrenagens essenciais. Em resumo, permitiram manter o contacto com o Mundo e o Mundo em contacto e minimizaram o seu lado mais obscuro.

Mas será que os poderes, os decisores, os políticos em geral estão e querem compreender esta cidadania digital ou só lhes convém a maior visibilidade mediática que as plataformas lhes conferem?

E como é que as democracias vão lidar com fenómenos complexos quando já todos percebemos que os extremistas sabem tirar mais proveito das redes do que os seus opositores? E ficarão sempre dependentes da autorregulação dos gigantes tecnológicos e de umas cosméticas em prol da privacidade, da segurança e da liberdade de expressão das comunidades? Continuarão ainda com leis fiscais obsoletas e à mercê das artimanhas dos líderes do digital?

A presença e ação do Estado na rede é anacrónica, desajustada e tímida. Até mesmo na gestão de crises, não aproveitando as potencialidades óbvias. Recordemos os incêndios de 2017 e agora a pandemia. Basta contar quantas aplicações institucionais temos instaladas nos smartphones para o perceber ou enumerar quantas vezes vimos organizações do Estado no nosso feed.

*Diretor-adjunto

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