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Opinião

Conversa de mosca

Nunca é um bom sinal quando uma mosca tem mais protagonismo que a mensagem daqueles que estão e podem vir a estar na vice-liderança de uma das maiores potências mundiais.

Foi o que aconteceu no debate entre Mike Pence e Kamala Harris, quando o republicano defendia a política de lei e ordem da administração Donald Trump face à brutalidade policial exercida sobre manifestantes zangados com o país e que exigem o fim do racismo em relação às minorias.

Mas o momento inusitado, que deleitou internautas e virou trending topic nas redes sociais, não é apenas uma metáfora. Representa mais uma cena de um espetáculo de puro entretenimento em que as eleições presidenciais norte-americanas se estão a tornar.

E só assim, com muito poder de encaixe, podemos sorrir quando Donald Trump diz que contrair covid-19 foi uma "bênção de Deus" porque o educou sobre potenciais medicamentos que podem curar a doença. Só que não. Num momento em que Portugal ultrapassa a fasquia dos mil infetados num único dia, em que a França se prepara para declarar o estado de emergência sanitária em algumas regiões até janeiro e em que os números se multiplicam assustadoramente por todo o mundo, a afirmação do presidente norte-americano não é nem uma piada, nem um ato de campanha. É um insulto. Um insulto às dezenas de pessoas que estiveram em contacto com ele e que agora testaram positivo, um insulto aos 212 mil americanos que já morreram da doença e aos mais de sete milhões de infetados, um insulto a todos nós que estamos expostos à pandemia.

Já não chegava minimizar a crise económica, os mortos da covid, as sondagens desfavoráveis, ignorar as questões dos direitos civis e alimentar os assassinatos racistas com discursos inflamados. Donald Trump perdeu definitivamente o respeito. Por si e pelos cidadãos. Do seu país e de todos os outros.

*Diretor-adjunto

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