Opinião

Indignos para receber heranças

Indignos para receber heranças

A imagem de um homem a agredir com um cinto um idoso, com mais de 90 anos, junto a uma rotunda de acesso a uma zona comercial, na cidade de Alcobaça, não tem muito tempo.

A vítima estava sentada dentro de um carro, ao volante, indefesa, e foi atacada pelo próprio filho. Aos olhos de todos, com raiva, sem vergonha. Se o fez em plena via pública, o que faria dentro de casa...

Há mais casos, infelizmente, de pais que são vítimas da barbaridade dos filhos. Bofetadas, murros, socos. Humilhações físicas e também psicológicas. Pelas razões mais inacreditáveis. Como, por exemplo, demorar a abrir uma simples porta de casa. Sim, também aconteceu. Em Rio Tinto. Estes acontecimentos foram tornados públicos. Mas muitos outros crimes ficam protegidos pelo silêncio, pela vergonha, pela incapacidade em pedir socorro. Em famílias de todos os géneros. Pobres e ricas.

Ontem, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima sugeriu que os filhos que maltratam os pais devem poder ser deserdados. A recomendação, que faz parte de um relatório que engloba dezenas de outros conselhos, só surpreende por, em Portugal, ser ainda quase impossível deserdar herdeiros legítimos. Mesmo aqueles que agridem os pais. Esporadicamente ou ao longo de meses. Ou que os colocam em lares para a terceira idade à força.

A covid-19 veio por a nu o sério problema que o país enfrenta no que respeita à proteção dos idosos. Mas também a inércia e a falta de vontade, tantas vezes disfarçadas apenas por meras querelas políticas. E daqui até à simpatia por medidas populistas, desproporcionadas, o caminho é curto. Os lamentos chegam depois. Permitir uma maior liberdade na disposição de bens, conseguidos com o trabalho de uma vida inteira, não é um favor, é um direito.

Diretor-adjunto

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