Daqui a uma década, as expressões "vamos dar um tempo" ou "quero estar só" vão parecer que saíram da boca de um louco. Ninguém vai entender a mensagem nem encontrar uma solução para o dilema. Porque caminhamos para nunca estarmos verdadeiramente sós, com o nosso tempo, com o nosso silêncio. O mundo digital não se distinguirá do físico e estar offline será um estado de espírito e nunca tecnológico. Um verdadeiro luxo, portanto. A previsão é de Gerd Leonhard, um futurista que foi cabeça de cartaz de uma conferência realizada, em Portugal, sobre a Internet das coisas.
E a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo. Foi isso mesmo que fez, esta semana, um norte-americano que castigou o filho de dez anos por bullying a colegas, fazendo-o correr à chuva até à escola, em vez de ir de carro ou de autocarro. A repreensão foi filmada, comentada e partilhada no Facebook pelo próprio progenitor, numa demonstração de perfeito desequilíbrio entre o mundo digital e real. Bryan Thornhill já não os separa nem sabe estar offline.
A punição do jovem, a fazer lembrar a caminhada da expiação da rainha Cersei Lannister pelas ruas de Porto Real, no último episódio da quinta temporada de "A guerra dos tronos", foi entusiasticamente aplaudida nas redes sociais, num julgamento público medieval e humilhante.
Bryan até explicou que, aparentemente, o comportamento do rapaz melhorou depois do castigo: "a isto chama-se ser pai". E finalizou o vídeo sublinhando que os pais devem ensinar os filhos: "não ser um amigo, ser um pai. É o que as crianças precisam, hoje em dia".
Talvez no futuro previsto por Gerd Leonhard, este pai se possa deslocar à província chinesa de Anhui, onde encontrará o dr. Xiaoyi, um robô dotado com Inteligência Artificial que lhe permite diagnosticar pacientes e passar-lhes receitas e que começou a "trabalhar" este mês.
Confio que nesse futuro de um único mundo, o algoritmo ou a programação do humanoide e sorridente dr. Xiaoyi contemple o espaço público e o privado, porque à falta de bom senso de quem expõe publicamente um filho e se congratule com o prémio de "melhor pai do ano", haja quem reconheça que a privacidade é cada vez mais como a água: preciosa.
É que a vida real e virtual está repleta de Bryans e de espectadores ávidos de caminhadas de vergonha, impondo que no futuro todos nós tenhamos de nos reinventar.
*SUBDIRETOR
