Enquanto em Portugal se preparavam as celebrações dos 44 anos da Revolução de Abril, em Menlo Park, Califórnia, ultimava-se a nova democracia para a vida de 2,2 mil milhões de utilizadores da maior rede social do Mundo. Na sequência do repetido pedido de desculpas e de uma série de promessas e mudanças após o escândalo do Cambridge Analytica, o Facebook divulgou, na terça-feira, pela primeira vez, as suas guidelines internas detalhadas.
O documento de 27 páginas, que define os padrões da comunidade, pretende deixar claro quais são as normas do algoritmo e o plano de guerra que guia o exército de quase oito mil moderadores para excluir comentários, mensagens e imagens, mas revela-se, sobretudo, um excelente instrumento de trabalho para psicólogos e sociólogos que há anos debatem os efeitos das redes na sociedade. É que, preocupado em minimizar a saída de utilizadores da rede e evitar a perda de receitas publicitárias, Mark Zuckerberg elaborou um manual de boas maneiras revelador de uma crise social e moral formada à sombra do vício dos ecrãs.
Ficamos, por exemplo, a saber que vídeos de canibalismo são proibidos, mesmo que sejam compostos por uma sequência de imagens estáticas. Já se a imagem for apresentada num contexto médico, com um aviso de que a visualização só é permitida a maiores de 18 anos, pode passar.
Na difícil tentativa de tornar o Facebook um lugar seguro e esquivar-se às acusações do exercício da censura, a rede sentiu-se ainda na ridícula necessidade de explicar que uma pessoa que já matou outra pode ter uma conta! Mas, atenção, caso cometa um segundo assassinato, será bloqueada e expulsa.
O esforçado mas disparatado guia avisa também que terroristas, mafiosos e responsáveis por redes de escravidão e prostituição não podem partilhar com o Mundo os seus feitos.
Na cartilha dos padrões não podiam faltar os esclarecimentos sobre nudez, assunto que tanto tem preocupado o dono disto tudo. Fotos que mostrem nádegas continuam a ser proibidas e imagens de mamas só num contexto de amamentação, parto, saúde e representação artística. E note, não considere partilhar um vídeo que o mostre a sacudir ou abanar uma criança...
E assim vai esta combinação de inteligência artificial com moderação humana para limpar a rede social pelo menos até ao próximo escândalo.
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