Foram dois dias de pura loucura. A conclusão que se extrai da greve dos motoristas de matérias perigosas é que uma grande parte dos portugueses não confia nas capacidades reativas e negociais do Governo, sindicatos e patrões, escaldados que estão com tantas outras greves, algumas intermináveis, que acabam sempre por prejudicar a população.
O país reagiu como se se preparasse para o fim do Mundo, açambarcando todos as gotas de combustível possível. Entre reuniões, avisos, alertas e apelos, abastecer foi o único pensamento que se instalou entre largos milhares de condutores, nem que fosse preciso gastar os últimos litros do depósito para chegar ao posto de abastecimento mais próximo.
Ficou o aviso para o futuro. Foram precisos apenas 800 motoristas para ameaçar parar o país (e podiam de facto tê-lo feito). Apenas 800, em contraste com os milhares de homens e mulheres da luta que nos habituámos a ver nas ruas. E também ficou uma certeza. Os novos protestos saíram da esfera ideológica, saíram das mãos e do controlo das grandes centrais sindicais. Foi assim com o movimento STOP dos professores, com o protesto dos estivadores, com a recente greve dos enfermeiros e repetiu-se nesta crise dos combustíveis. Esta sexta-feira será Santa. A guerrilha política de campanha pré-eleitoral dará tréguas, após o ping-pong habitual de troca de acusações. Quando esperávamos que todos os partidos se unissem e falassem a uma só voz para resolver um problema grave e inédito no país, à esquerda culpou-se (ainda!) a troika e à direita gritou-se "incompetência". Nas filas dos postos de abastecimento, encolheu-se os ombros. Em casa, também.
Agora é tempo de todos reclamarem vitória. A greve foi cancelada para as partes em conflito negociarem até dezembro. Resta-nos esperar se lá para o Natal, e já com novo governo, em vez de presentes no sapatinho não teremos um bidãozinho de gasóleo.
*Diretor-adjunto
