Opinião

Filhos do privado não contam

Filhos do privado não contam

A maior parte de nós não pode deixar de trabalhar por um dia para cuidar dos filhos. E quase metade dos portugueses nem sequer consegue alterar a hora de entrada ou saída do emprego para levar as crianças ao médico.

Os dados constam das estatísticas do INE. São recentes e, infelizmente, pouco surpreendentes: um trabalhador, mesmo protegido pelo código de trabalho, enfrenta dificuldades.

É de saudar, portanto, o programa "Três em linha", apresentado pelo Governo, para promover uma melhor conciliação da vida profissional e familiar. Não se entende é a razão pela qual haverá uma dispensa de três horas, na primeira fase só para os funcionários públicos, para acompanhamento dos filhos menores, até 12 anos, no primeiro dia escola, sem perda de quaisquer direitos laborais. Porquê três horas no primeiro dia? Porquê no primeiro dia? Porque não espalhar essas horas pelo ano letivo, quando os pais precisam verdadeiramente de ir à escola? E os pais que trabalham fora de horas? E, na verdade, segundo o Código de Trabalho, os pais já podem faltar, até quatro horas, uma vez por trimestre, por cada filho menor, para se dirigirem à escola.

Por isso, esta medida é um pouco como pôr a cenoura à frente do cavalo para ele correr mais, pois será executada em cima das eleições legislativas do próximo ano. E os funcionários públicos são eleitores de primeira. Interessa, mesmo com medidas redundantes, mantê-los felizes, dentro da infelicidade evidente demonstrada em protestos e greves.

Quem assobia para o lado e ignora que os portugueses com mais dificuldade em se ausentar do local de trabalho são mesmo os que trabalham no privado? No mesmo privado onde as mulheres ainda adiam a maternidade para não serem despedidas e não perderem a sua progressão na carreira.

Medidas bonitas, em que o Governo faz um brilharete, escondem problemas bem mais importantes. A conciliação da vida pessoal, profissional e familiar é complexa, mas para todos e não apenas para os afortunados eleitores de primeira.

Diretor-adjunto

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