Vivemos num país desigual. Há poucas dúvidas sobre isso. Mas quando quem mais precisa é quem menos apoio tem, percebemos que ainda falta mudar muita coisa e não apenas as assimetrias de género no trabalho ou a desigualdade social entre homens e mulheres, diferenças que têm concentrado as atenções do debate na praça pública.
Esta sexta-feira, há festa no Parlamento. Os nossos deputados vão votar, após iniciativa do PSD e CDS, uma proposta de congratulação pela vitória da seleção portuguesa de padres no europeu de futsal, onde não falta referência ao clérigo André Meireles, por este "avançado de Deus ter marcado um surpreendente "hat-trick" na final da prova". A distinção é, claro, merecida, até por ser a quinta vez que o clero levanta mais alto o nome de Portugal. E também é habitual. Já em fevereiro, a Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um voto de louvor, desta vez apresentado pelo PCP, à seleção feminina de futsal, que se sagrou vice-campeã no campeonato da Europa.
Até aqui tudo bem. Pena é que este mesmo Parlamento não inclua também um louvor a um empresário algarvio que vai concretizar o sonho da seleção nacional de futsal de síndrome de Down que estava em risco de não participar no campeonato mundial da modalidade por falta de dinheiro, concretamente 35 mil euros. "Vamos levar estes miúdos ao Brasil sendo o parceiro oficial desta nossa seleção campeã europeia que tanto nos orgulha. Todos têm o direito de sonhar. E todos nós somos filhos de Deus", explica, ao JN, este empresário que substituiu o Estado naquela que deveria ter sido a sua função.
Todos nos sentimos um pouco envergonhados quando 35 mil euros podem desfazer o sonho dos atuais campeões europeus e vice-campeões mundiais de futsal de síndrome de Down. E todos nos sentimos envergonhados quando a diferença é sinal de indiferença. Há coisas que nem o dinheiro paga.
Diretor-adjunto

