Opinião

Ministros com dois carros?

Ministros com dois carros?

Assinalando o facto de Lisboa ser Capital Verde Europeia em 2020, António Costa anunciou que, a partir de 1 de fevereiro, todos os ministros só circularão na cidade e na área metropolitana em viaturas elétricas.

Não sabemos se evitou o termo carros elétricos propositadamente, mas o certo é que nenhum português acredita em viagens ministeriais realizadas de trotineta, bicicleta elétrica ou tuk-tuk. A promessa tem mérito. Ninguém o tira. Mas também tem um pouco de show off. E também é centralista.

Porquê apenas em Lisboa? Também não se percebe muito bem a amplitude do "gesto simbólico", como lhe chamou António Costa. Os ministros só se deslocam de veículo elétrico em Lisboa e na área metropolitana? Ou seja, de casa ao ministério e do ministério a casa? E quando saírem de Lisboa, viajam num outro veículo? Cada ministro vai ter dois automóveis? Os gabinetes vão abater à frota um automóvel a gasolina para dar lugar a um elétrico? Diz ainda o primeiro-ministro que, "se é possível relativamente à mobilidade dos membros do Governo, é possível para a mobilidade de todos e é essa mudança que temos de fazer ao longo dos próximos dez anos".

O problema é que a mobilidade da grande maioria dos portugueses é garantida sobretudo pelos transportes públicos. O problema é que os ordenados não são compatíveis com a aquisição de automóveis elétricos e os incentivos estatais à compra não passam de um mera migalha. Antes, também a propósito de Lisboa Capital Verde Europeia, o secretário-geral da ONU fez um discurso universal e apontou o dedo aos grandes países que poluem o planeta.

Todas as medidas no combate às alterações climáticas são desejadas, mas espera-se que não sejam híbridas e, no mínimo, não acentuem ainda mais o centralismo. E que sejam efetivas e não apenas para encher o olho, como foram as anunciadas em 2016, no âmbito do Simplex, que apontavam o fim do uso do papel na administração pública, em 2017, e o fim dos transportes de serviço dentro das cidades em 2018.

P.S.: Pragmática é a "Declaração do Rivoli" saída da conferência do JN sobre "Os caminhos da descentralização". Se os autarcas asseguram que as populações ficarão pior servidas e temem ainda mais desigualdades territoriais, o Governo tem de ouvir quem está no terreno e negociar cara a cara com os municípios.

*Diretor-adjunto