Opinião

O cabo dos trabalhos

Flexibilizar os horários de trabalho é positivo desde que a medida não piore a organização familiar e social, já tão massacrada pela pandemia.

Se para muitas famílias do Porto ou de Lisboa entrar uma hora mais cedo ou sair 30 minutos mais tarde do emprego não interfere nas rotinas de casa, para muitas outras será mais um problema a conciliar com várias tarefas também alteradas pela covid.

Em teoria o plano é positivo. Poderá ser parte da solução para minimizar a propagação da doença, evitando mais confinamentos na economia e mantendo as empresas com as portas abertas.

A questão é como será aplicado, fiscalizado e como se evitarão abusos das entidades patronais que, a pretexto de uma determinação temporária, venham a impor mudanças efetivas.

O processo começou mal. Empresas e sindicatos queixaram-se de falta de informação e da ausência de diálogo. Têm razão. Os patrões temem que os desfasamentos de horários nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto possam criar grandes dificuldades de funcionamento em algumas empresas. Já os sindicatos consideram inaceitável entregar um poder unilateral às entidades patronais sem haver uma negociação com os representantes dos trabalhadores.

A ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva, disse ontem que estas medidas já estão em prática na Função Pública, minimizando de alguma forma as dificuldades em implementar o plano "excecional e transitório" no setor privado. Resta saber se a maioria das empresas, onde o trabalho de uns depende do trabalho de outros, observarão as novas regras obrigatórias com o mesmo facilitismo.

Que o tema sirva ao menos para encarar o teletrabalho com outra atenção, porque este sim veio para ficar. É que neste modelo há muitas questões por resolver, desde a vigilância por parte das empresas até aos custos suportados pelo empregador.

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*Diretor-adjunto

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