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Política a preço de saldo

Política a preço de saldo

Esta sexta-feira negra tem pelo menos uma virtude. Numa época em que vivemos no extremo do politicamente correto e em que medimos todas as palavras ditas e escritas, ainda não houve quem propusesse mudar-lhe o nome. Contudo, ainda se esboçou uma tentativa no sentido de boicotar a ação de marketing.

Nas redes sociais, escreveu-se que a black friday foi criada para assinalar o dia em que se vendiam escravos em saldo. Não foi, porém, preciso nenhum polígrafo para desmontar a tese. O primeiro registo do uso do termo nos EUA data de 24 de setembro de 1869, portanto seis anos depois da abolição da escravidão. Não tem nenhuma conotação racial.

Já por cá, tivemos um ministro a apontar o dedo aos descontos nas lojas e a todos os consumidores. A black friday é o "expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista", defendeu Matos Fernandes. Uma afirmação no mínimo discutível tendo em conta que um governante de um regime democrático não se devia manifestar contra a liberdade económica, já para não falar nos impostos que pagamos sobre o que consumimos e que ajuda sempre a acenar com a bandeira das tais contas certas. É triste que seja um governante a fazer-nos sentir pequenos nas nossas escolhas, quando as nossas escolhas pelos serviços públicos são o que são. Se é para fazer pedagogia, em prol do clima, então olhe-se para o movimento solidário Giving Tuesday, que chega a Portugal na próxima terça-feira e pretende apoiar organizações sem fins lucrativos, contrapondo-se ao consumo intenso da black friday.

Isto, sim, é mudar o mindset, mudar os nossos comportamentos e atitudes em detrimento de "puxões de orelhas", como este que o ministro pretendeu dar.

A Greta Thunberg já está em águas portuguesas, mas também não é preciso exagerar no ativismo popular e demagógico.

*Diretor-adjunto

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