Opinião

Pontapé na bolha

O primeiro remate desenquadrado com a baliza na final da Liga dos Campeões foi feito pelo Governo. Anunciou uma bolha que não existiu e teimou nessa mensagem quando centenas de ingleses já se divertiam e andavam à cacetada pelas ruas do Porto.

Ironicamente, já durante a tarde de ontem, a Proteção Civil enviou uma SMS aos portugueses alertando para a necessidade do uso da máscara e do distanciamento social e relembrando que é proibido beber álcool na via pública!

Voltamos, portanto, à questão da comunicação, o verdadeiro calcanhar de Aquiles do Governo de António Costa durante a longa gestão da pandemia. E voltamos a uma política de dois pesos e duas medidas.

O problema nem foi tanto a presença dos adeptos do Chelsea e do Manchester City no Porto, até porque todos tiveram de ser testados à covid-19 antes de embarcarem. O problema foi mesmo a embrulhada de palavras, ou melhor, o anúncio do plano do Executivo para a organização da prova em condições de segurança.

Recordemos as declarações de Mariana Vieira da Silva, ministra de Estado e da Presidência, sobre as medidas preparadas pelo Governo para receber os mais de 16 mil adeptos britânicos que viajaram até à Invicta. "As pessoas que vierem à final da Liga dos Campeões virão e regressarão no mesmo dia, com teste feito, em situação de bolha, ou seja, em voos charter, com deslocações para uma zona de espera. Daí irão para o estádio e depois para o aeroporto, estando em território nacional menos de 24 horas, numa permanência em bolha e com testes obrigatórios, feitos, em princípio, antes de entrarem no avião", prometeu.

Mas só se engana quem quer ser enganado e nem mesmo aqueles que não acompanham fenómenos desportivos desta natureza achariam possível que os adeptos ingleses viessem ao Porto e não se juntassem para beber cerveja nas esplanadas e trocar mimos pelas ruas. Ainda por cima com o tempo a ajudar à festa.

Seguem-se as declarações da UEFA a explicar que seria apenas aconselhável e não obrigatório que os adeptos viajassem no próprio dia do jogo. Depois, ficamos a saber que os clubes ingleses também não impuseram restrições de viagens aos apoiantes na compra dos bilhetes. E já com os ingleses em força no Porto, a PSP esclarece que o termo bolha "não faz parte do léxico policial. Não há limitação de movimentações de adeptos. Se estiverem espalhados pela cidade, vamos ter de nos adaptar a essa circunstância", disse o responsável pela operação.

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O país percebeu rapidamente que não havia qualquer plano para conter e evitar algum exagero entre os ingleses. Não havia bolha. Nem estratégia. A única que o país viu foi a dos adeptos a comer, a beber e a confraternizar com os amigos.

É certo que não há melhor marketing para o turismo do que esta ilusão de que em Portugal já está tudo ok. Mas não há nada pior que, depois do caso de Alvalade, voltar a passar a ideia de que no nosso país há dois pesos e duas medidas.

Diretor-adjunto

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