Crianças. Crianças. As palavras, em forma de sinal gigante, escritas em russo nas laterais do pavimento do teatro Mariupol, capturadas por imagens de satélite antes da estrutura ser atacada, desapareceram do mapa.
A mensagem, de apelo, mas também de socorro, não salvou a vida de muitos dos que se encontravam abrigados, escondidos, a lutar pela sobrevivência.
O horror repete-se. A estratégia de Putin também. A narrativa idem. O Kremlin, como tem sido prática, nega qualquer responsabilidade. Atira as culpas, como tem sido prática, para o batalhão Azov, a organização ucraniana paramilitar com simpatias pela ideologia nazi. Para Kiev só há uma certeza. Os russos. Foram os russos.
Percebe-se há muito tempo que há quem minta. Ao seu povo, aos seus soldados, ao seu país. Aos outros países. A todos. É com este interlocutor que se tenta esboçar um trágico, será sempre trágico, acordo de paz. De falsa paz. De paz mentirosa.
Quanto vale a vida humana no Kremlin? Zero.
E é com esta certeza que as negociações para terminar com a carnificina que o Mundo tem assistido vão avançando a passo lento. Entre quem mata, quem constrói muros à bomba e entre quem também equipou o invasor, com armas que agora servem para chacinar os ucranianos.
Chegado a este necessário momento, que a memória não seja curta. Que a guerra partilhada e transmitida em direto sirva para julgar os culpados, todos eles, e tornar as instituições internacionais mais fortes e menos cínicas.
Não é necessário relembrar as guerras na Síria, na Chechénia ou os horrores na Croácia, na Bósnia-Herzegovina ou no Kosovo para percebermos que a culpa continua a morrer solteira.
*Diretor-Adjunto
