Opinião

O Norte é um amor inteiro

O Norte é um amor inteiro

Vá para fora cá dentro foi uma das frases mais felizes de uma campanha destinada a promover o turismo dentro de portas. Continuamos a viver nessa era de ir para fora por dentro. Mas também na era da pressa, do fugaz e do acessório. Uma era onde parece saltar mais à vista o que está fora do que o que vem de dentro.

No Norte podemos orgulhar-nos de ao invés de escolhermos resistir e lutar contra a maré, optamos por gentilmente mostrar a quem anda distraído, como quem não quer a coisa, que a forma (ou seja, o que está "por fora") é apenas uma consequência da profundidade dos nossos conteúdos, das nossas gentes, dos nossos territórios (que é aquilo que nos corre "por dentro").

Agora que o solstício de verão nos contempla, quem visita o Norte só ficará a ler-nos a alma se nos descobrir de dentro para fora, ou seja, do interior para o litoral.

É que o Norte de Portugal é um puzzle complexo onde, sozinhas, as peças dos cantos, apesar de mais fáceis de encontrar no meio da confusão imposta pelo arranque de um novo projeto, de pouco ou nada valem.

Podem sentir na pele os prazeres da nossa costa, onde a água fresca do mar é um convite à resistência dos mais audazes, mas a beleza rochosa das nossas praias só será apreciada na plenitude por aqueles que também escalaram, entre pedras e riachos, as montanhas transmontanas ou os recantos do Parque Nacional Peneda-Gerês.

Poderão encantar-se com a modernidade da Casa da Arquitetura ou a densidade do Museu Soares dos Reis, mas a sua complexidade só poderá ser verdadeiramente entendida se, nesse roteiro cultural, incluirmos as gravuras rupestres do Côa, a enormidade do Mosteiro de Tibães ou a missão do Eco Museu do Barroso.

Na gastronomia quem ficar apenas pelo delicioso peixe fresco da nossa costa ou pelas afamadas francesinhas ficará irremediavelmente aquém de saborear os mais bem guardados segredos da nossa região. Das casulas e castanha transmontanas, aos seus enchidos até à carne arouquesa ou mirandesa ou ao minhoto arroz de sarrabulho, são tantas as "graças" que não caberiam todas nesta crónica.

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O que está de fora, lá fora e cá dentro é a nossa costa, o Porto, cidade do meu coração, e as suas imediações mais próximas. Só que este Norte "de fora" só existe - e só tem tanta graça - porque beneficia de uma identidade autêntica de raízes e história profundas que advém deste Norte "de dentro", deste interior que carregamos, enquanto região, no ventre.

Assim é o Norte. Como uma mulher bonita sem idade possuidora de uma luz interior que, irradiante, contagia.

Quem nos visita tem de optar: ou a aprecia de soalheiro e desconhecerá para sempre a profundidade da sua luminosidade ou dá-se o caso de lhe querer ler as entrelinhas. E aí, meus amigos, não há remédio: É um amor para a vida inteira.

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