Ninguém lhe viu mais um sorriso desde que retiraram Júlia da ilha de Campanhã e a levaram para um primeiro andar de um bairro camarário. Passava os dias à janela, a olhar para nada, boca fechada a perguntas. "Ficou assim. Nesta tristeza que dá dó", diz a filha, mudando o tom de voz numa explicação que ela própria não sabe entender. "Está melhor aqui. Na ilha éramos uma família, mas estava tudo muito velho, tudo a cair. Mas ela nasceu lá, cresceu lá, casou lá e teve-nos lá. Para a minha mãe a ilha era o Mundo inteiro". Júlia abana a cabeça a confirmar. Continua calada, mas larga suspiros profundos. Ramiro, vizinho do bairro, afiança que não entende tanto pesar. "Querem lá comparar casas velhas com um apartamento? Aqui não é melhor?" A velha senhora olha-o de alto a baixo. E abana a cabeça num "não" sem dúvidas. O álbum com fotografias que a filha abre em cima da mesa atiça a atenção de Júlia. Passa a mão pelos rostos dos retratos e atira uma palavra: "saudade". Ramiro fica zangado. "Saudade? De quê? Dos ratos? Do espaço tacanho? Não percebo!" Foi então que se ouviu Júlia. "De uma vida inteira a tornar melhor o que era mau. De saber que em cada vizinho havia um amigo. De noites alegres no S. João e de lágrimas partilhadas sempre que um de nós partia. De sabermos que éramos todos iguais". Fez-se silêncio na sala. Júlia voltou para a janela. O Mundo pode caber numa ilha. (Em honra dos 13 moradores do bairro do Cruzinho, no Campo Alegre, no Porto, que alguém quer transformar numa torre de 10 andares).
*JORNALISTA
