Opinião

Bolo-rei

Há tempos ouvi a chefe Marlene Vieira argumentar, em entrevista, que os doces portugueses, ao contrário do que se diz, não são doces demais, mesmo os conventuais. O que acontece, explicava, é que os comemos fora da época e em quantidades excessivas. Não num período curto de festa, mas o ano todo. E dava o exemplo do bolo-rei. Embora inventado para ser comido no Natal, no Ano Novo e no Dia de Reis, na verdade invade as pastelarias e as casas a partir de outubro, ou mesmo antes. Pensei que a chefe devia ter razão no que dizia, mas não no caso do bolo-rei. É bom todo o ano, sobretudo em algumas pastelarias que o fazem por encomenda. E é perfeito: não muito doce, cheio de frutos secos, portanto saudável. Ou não? Estou errada?

O bolo-rei está em todas as pastelarias e padarias, mas é preciso ter critério. São poucos os que se recomendam. Sei do que falo porque não perco uma oportunidade para procurar o melhor. E tenho a minha pequena lista de preferências e de discussões com os amigos a propósito do melhor bolo-rei de Lisboa. Bem sei que há concursos, mas gosto de fazer eu própria a avaliação, e, no limite, nem sequer preciso de os provar. Aliás, o primeiro critério cumpre-se com o olhar: é a cor dos frutos cristalizados. Pedaços de abóbora da cor do tomate, não. Figos pintados de verde bandeira, não. Tiras de casca de laranja secos e em demasia, não. Açúcar branco em pó cobrindo todo o bolo, não. Frutos secos lascados ou moídos, não. O bolo-rei da minha preferência tem pera cristalizada, pêssego, tiras de casca de laranja e cerejas cristalizadas e macias. Tem amêndoas inteiras, nozes e passas. E há anos e anos que não muda o padrão, não cede a tentações de simplificar ou variar na decoração.

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A primeira exigência é, portanto, olhar e avaliar a qualidade dos frutos cristalizados e secos e a forma como cobrem o bolo. Depois, avaliar a cor da massa lêveda (não pode ser amarela) e a consistência. Para isso é preciso provar. Se não conseguir resistir a uma segunda fatia, o bolo está aprovado. Aos que vivem em Lisboa, aconselho a que comecem pelo Califa, em Benfica, podem depois passar na Versailles, na Nacional, no Careca, ou ir até à Garret, no Estoril. Aposto que, depois de fazer todo o circuito, voltarão à primeira e não vão querer outro bolo-rei que, por encomenda, podem oferecer e comer durante todo o ano, sem enjoar, dando razão aos que dizem que Natal é quando uma pessoa quiser.

*Professora universitária

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