Opinião

Saber história

Estudar história não é apenas importante para conhecer o passado. É também indispensável para perceber o presente e até para planear o futuro.

Os comentários mais interessantes sobre o presente conflito, decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia, vieram precisamente de quem sabe história, a dos países envolvidos, a dos vizinhos como a Polónia e até a de outras negociações de paz, mostrando como a humilhação excessiva dos vencidos pode virar-se contra os vencedores. É aí que a discussão tem saído da bolha emocional das redes sociais.

Esta semana, a história foi também para mim um instrumento indispensável para o trabalho de observação eleitoral nesse magnífico país que é a Colômbia. Dificilmente, de outro modo, perceberia por que não há uma, mas três Colômbias: a urbana, desenvolvida, moderna, embora com desigualdades, onde se encontram os melhores interlocutores, como acontece na discussão das estratégias para a transição climática e digital; a rural, muito empobrecida, onde, praticamente, não há Estado; e aquela onde não chegou a paz. Percebi o passado que está por detrás das três.

Primeiro, a dispersão das comunidades indígenas, que nunca viveram num império organizado, como foi o dos Incas, no Peru. A seguir, a colonização espanhola, a da costa, com acesso fácil, por onde passava o comércio, e aquela que ficava para lá dos montes, nas rotas para o Pacífico, onde ficou a contestada capital, Santa Fé de Bogotá. E, depois, a história da independência, feita por famílias de colonizadores, liberais ou conservadores, o desenvolvimento das grandes cidades, a par de um território que continuou abandonado ou quase inexplorado. Foi aí que cresceu a guerrilha a que o processo de paz tentou pôr fim e foi por aí que se espalhou o narcotráfico, beneficiando também da pobreza urbana, o qual permanece, hoje, um problema por resolver que tanto afeta a segurança do povo colombiano e onde os EUA e a Europa também têm responsabilidades.

Eu tive a oportunidade de ir observar as eleições para uma "Circunscrição especial de paz", muito longe da capital, onde se deram às vítimas a possibilidade de elegerem os seus representantes. Nunca teria entendido as dificuldades do processo eleitoral se não tivesse ido e, sobretudo, lido "Colômbia: una historia mínima", de Jorge Orlando Melo, que foi o meu descodificador. Tomara que as eleições ajudem a que a paz possa chegar mais longe, lá onde nunca chegou nada a não ser a violência, "a grande tragédia da sociedade colombiana e o seu maior fracasso histórico", nas palavras do autor.

*Eurodeputada do PS