Opinião

Menos betão, mais qualificação

Menos betão, mais qualificação

Quantas vezes já ouvimos criticar autarcas por se dedicarem com especial empenho à construção de rotundas, esquecendo que algumas delas foram indispensáveis para organizar o trânsito e prevenir acidentes?

É até mais frequente esta crítica do que a feita a outras obras eventualmente menos necessárias. Poucos se atrevem a dizer mal de uma escola nova mesmo quando a velha, devidamente recuperada, poderia desempenhar a mesma função. Como uma vez ouvi de um presidente de câmara, "se eles pagam porque hei de eu recuperar em vez de construir de novo?" O "eles" a quem se referia era o Governo da República com os habituais fundos europeus.

Com estes fundos, especializámo-nos a fazer obras novas. Dispomos da tecnologia e sabemos como executar. Muitas eram evidentemente necessárias num país com défice de infraestruturas coletivas. Outras nem por isso, mas ajudavam na contabilidade eleitoral dos autarcas, onde construir de novo tem sido o principal indicador de sucesso. Pior que isso, por vezes o esforço esgota-se na construção do pavilhão desportivo, esquecendo que a seguir era preciso desenvolver uma política que incentive o seu uso. Alguns "elefantes brancos" que encontramos pelo país resultam exatamente disso, da autossatisfação com a obra pronta, quando a obra é apenas o principio de uma história que tem de continuar a ser escrita com atenção.

Quantas vezes ouvimos a crítica contrária que rejeita um autarca simplesmente porque não tem obra? Note-se que a obra é a física, edifícios, estradas, e não a obra imaterial, a atracão de investimento, a agilização dos canais de participação, a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Dir-me-ão que aqui e ali há ainda obras por fazer que são indispensáveis, o que é verdade. Conheço também autarcas de diferentes partidos (que com pena não cito hoje porque estamos em campanha eleitoral) que se têm destacado pelo investimento nas pessoas, a atração de empresas inovadoras que criam emprego qualificado no seu território, a expansão da infraestrutura de fibra, a qualificação em competências digitais, a saúde preventiva, a valorização do conhecimento, o acolhimento de refugiados e sua integração, a recuperação do património cultural e natural, a simplificação dos procedimentos administrativos, entre outras excelentes iniciativas. É muito importante que este modelo se torne dominante no uso do dinheiro do Plano de Recuperação e Resiliência e no próximo quadro de fundos europeus. Precisamos de muito mais imaginação e criatividade para os executar de maneira a tornarmo-nos efetivamente mais resilientes.

Menos betão e mais qualificação deveria ser por isso um lema orientador dessa tarefa. Autarca que faz obra, como é uso dizer a título de elogio, tem também de ser aquele que constrói o que não se vê. Aquele que alicerça o futuro do seu território fixando pessoas e oferecendo-lhes condições para que possam ser felizes. É isso o que devemos exigir nos próximos quatro anos.

*Eurodeputada do PS

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