Opinião

A memória dói? Isso é do presente

A memória dói? Isso é do presente

Há três semanas um ativista antirracista protestou contra a homenagem do Estado a um combatente africano do exército colonial, Marcelino da Mata, criminoso de guerra confesso. Muitas outras vozes se ouviram contra este tributo mas, porque Mamadou Ba é negro, houve quem sugerisse que deveria ser deportado.

O episódio tem pouco para contar. O tema não são as declarações de Mamadou. Em causa está o debate sobre o racismo estrutural na nossa sociedade, um debate adiado pela força da conveniente narrativa lusotropicalista acerca do benévolo colonialismo português. O trabalho forçado ou a guerra colonial são como terríveis segredos que toda família conhece mas que ninguém se atreve a descrever, como se a memória do horror devesse morrer com quem o viveu. Dessa ocultação saiu uma ideia, hoje slogan da extrema-direita: "não existe racismo em Portugal". A comprovada prevalência de fenómenos de pobreza, desigualdade e sobre-exploração na população negra não é coisa que mereça explicação.

Se não existisse racismo, a crítica pública ao elogio do Estado a uma figura como Marcelino da Mata não seria seguida de uma sugestão de deportação. Se não existisse racismo, seria possível desconstruir os mitos sobre o colonialismo - analgésicos sem poder de cicatrização - sem que tal fosse crime de lesa-identidade nacional.

Por todo o Mundo, essas narrativas hegemónicas estão em perda, cada vez mais disputadas por quem estuda e/ou vem do outro lado da História. Isso é, aliás, um processo imparável. Com esse debate, Portugal será mais capaz de compreender e aceitar a sua própria diversidade. Em face desse processo, há quem ataque alguns dos seus protagonistas, acusando-os de reforçarem os racistas saudosos do colonialismo. Espantosamente, foi isso que fez António Costa numa entrevista concedida na semana passada, em que afirmou que "nem Mamadou Ba nem André Ventura representam o sentimento da generalidade do país". António Costa criticou ainda uma suposta "revisão autoflageladora da nossa História" que conduziria a "uma fratura perigosa para a nossa identidade nacional".

Sempre que, a par de outros movimentos, como os das mulheres, as pessoas negras questionarem o lugar que lhes é atribuído na sociedade, enfrentando narrativas de autoproclamado consenso, a extrema-direita reagirá. Mas muitas outras pessoas que estão longe da extrema-direita poderão sentir o desconforto de quem vê contestada a sua mundivisão. A derrota do racismo e dos mitos do colonialismo não será um processo consensual, mas é necessário, se queremos fazer o caminho para uma sociedade melhor. O racismo impregna a nossa história, assim como a estrutura das relações económicas e sociais do presente. Não basta negá-lo para que desapareça. Pelo contrário: essa fratura ficará mais funda sempre que, levados pelo conservadorismo ou pelo medo, os democratas concederem argumentos à extrema-direita, como fez o primeiro-ministro.

*Deputada do BE

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