Opinião

Greves: sinais de esperança e exigência

Greves: sinais de esperança e exigência

Lembro-me bem de 2012 e 2013. Foram anos de grande contestação e de muitas e duras greves, tanto no setor público como no privado. Na altura estava em causa a defesa dos direitos mais básicos.

Os enfermeiros lutavam para não emigrar, e para resistir ao aumento da carga horária, das 35 h para as 40 h sem qualquer salário adicional. Os pensionistas e funcionários públicos revoltavam-se contra o fim dos subsídios de Natal e de férias. Muitos tinham perdido o emprego e confrontavam-se agora com os cortes no subsídio de desemprego. Quem trabalhava indignava-se contra a sobretaxa em IRS. A enorme contestação destes anos foi a luta de um país para salvar o que tinha e que era seu por direito.

No verão de 2013 a situação alterou-se. Depois das enormes manifestações que travaram o aumento da TSU, tinha-se criado uma brecha de esperança relativamente ao fim antecipado do governo do PSD e CDS, que parecia concretizar-se com a demissão de Vítor Gaspar e de Paulo Portas. O recuo de Portas, promovido a vice-primeiro-ministro, deitou por terra essa possibilidade, consolidando a imagem de um governo autoritário e imune à contestação social. A resignação de um povo entristecido tinha temporariamente substituído a esperança numa alternativa. Foi por esse povo, e para lhe dar resposta, que se assinaram os acordos entre os partidos de Esquerda e o PS, que deram origem à atual maioria parlamentar.

Muitos dos retrocessos impostos pela Direita foram reparados e o medo e a humilhação foram substituídos pela legítima expectativa de novos avanços e conquistas há muito esperadas. E é neste contexto que a contestação e as greves voltam hoje a aumentar.

Quem quiser ler a nossa sociedade com seriedade sabe que a contestação de 2018 não tem os mesmos fundamentos da de 2012, porque ela luta por avanços, e não para travar recuos. E também sabe que, entre Lisboa e Paris, há 1738 quilómetros de diferença. Macron é um representante da elite económica que está a tentar impor ao seu país um programa radical de reformas austeritárias e liberais, consumada a capitulação da social-democracia francesa.

As greves em Portugal aumentam porque a esperança de viver melhor é grande, e ainda bem. Mas as expectativas exigem respostas. O governo do Partido Socialista teve e tem todas as condições para fazer melhor: para investir mais nos serviços públicos e respeitar os seus profissionais, para encontrar solução para os estivadores e aprovar novos mecanismos de proteção do salário no privado.

Mas para haver respostas, o Governo deve mobilizar, além de um pouco de humildade, muita determinação, até para não deixar as escolhas que contam ao desgoverno europeu.

A onda grevista é isso: esperança e exigência.

Deputada do BE