Opinião

Sem tempo para nervosismos

Sem tempo para nervosismos

No Bloco de Esquerda nunca vimos o acordo com o PS ou a maioria parlamentar como um embaraço ou uma contrariedade. O programa de Governo do PS, tal como a sua atuação, estão muito longe do que achamos necessário para construir um futuro melhor para o país. Mas, em 2015, fomos confrontados com dois desafios, que aceitamos: i) começar a responder às urgências sociais deixadas pela Direita, e ii) usar a relação de forças existente para negociar avanços em áreas essenciais: combate à precariedade, justiça fiscal, liberdades individuais, serviços públicos, etc.

Durante estes três anos, e em três orçamentos, fomos uma força empenhada em cumprir ambos os desafios. Propusemos e formamos grupos de trabalho com o PS; negociamos medidas ao cêntimo, às vezes durante meses. Sempre que possível, como na precariedade ou na reforma do IRS, fizemos compromissos, por vezes longe do nosso ponto de partida. Noutras matérias, como na venda de bancos ou no acordo com os patrões para a redução da TSU, não acompanhámos o Governo, nem o nosso compromisso eleitoral o permitiria. Somos críticos e exigentes, mas agimos sempre com lealdade e competência porque levamos muito a sério as expectativas criadas no país.

Nos últimos tempos, depois da ascensão de Rui Rio no PSD, a atuação do PS face à maioria parlamentar alterou-se. Nas carreiras, o Governo fez tábua rasa do compromisso orçamental sobre o tempo de serviços dos professores; na lei laboral, acordou em segredo com os patrões medidas contrárias ao acordo com o Bloco; na saúde, colocou Maria de Belém no caminho da elaboração conjunta de uma lei de bases proposta por Arnaut e Semedo; no ISP ignorou o compromisso de neutralidade fiscal.

Agora, membros de topo do Governo desdobram-se em declarações, dizendo-se vítimas de ultimato por parte do Bloco. Não houve nem há ultimato. O que há é a exigência de ver cumpridos os compromissos assumidos pelo Governo, para que o último orçamento seja negociado como os anteriores - atempadamente, de forma séria e consistente. Não nos interessam os simulacros. Estamos cá para negociar, resolver problemas e terminar a legislatura. E tudo será mais fácil se o PS controlar o seu nervosismo pré-eleitoral e regressar ao espaço da maioria parlamentar que sustentou até agora o Governo. Com vontade de diálogo e de soluções que reforcem - e não que enfraqueçam, como no trabalho ou nos professores - o sentido dessa maioria.

DEPUTADA DO BLOCO DE ESQUERDA

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