Opinião

O vírus ri-se das fronteiras

O vírus ri-se das fronteiras

No final de novembro de 2020, uma petição de 99 países, liderados pela África do Sul e pela Índia, pediu à Organização Mundial do Comércio que suspendesse as regras das patentes associadas a medicamentos, vacinas e tecnologia para combater a covid.

Só assim seria possível contrariar os efeitos do açambarcamento das vacinas pelos países ricos e proteger a população mundial. Já nessa altura, uma coligação de organizações não governamentais como a Oxfam e a Amnistia Internacional denunciou que 14% da população detinha 53% das vacinas e que, em cada dez pessoas dos países pobres, nove não teriam acesso à vacinação.

Contra todas as evidências científicas e contra a toda a racionalidade - humanitária ou mesmo egoísta (a baixa vacinação potencia o desenvolvimento de novas estirpes que se tornarão sempre globais) -, contra os apelos da Organização Mundial de Saúde e das Nações Unidas, os países mais ricos do Mundo impediram o levantamento das patentes. Nesse grupo esteve sempre a União Europeia, com o apoio do Governo português, protegendo os interesses das farmacêuticas em vez da população mundial.

A vacina contra a covid não se tornou um bem público, como defendia António Guterres, mas um fator de reprodução da pobreza e das desigualdades que dividem o Mundo.

Recentemente, uma nova variante SARS-CoV-2, a B.1.1.529., também conhecida por ómicron, foi identificada por cientistas na África do Sul, que imediatamente alertaram o Mundo para a sua descoberta. A nova variante foi encontrada por toda a Europa, onde as infeções aumentaram muito (ainda que com muito menos internamentos e sem qualquer morte). Não existe qualquer opinião científica consolidada sobre a perigosidade da ómicron face às variantes anteriores, ou sobre a sua resistência à vacina. A ausência de casos mortais estende-se aos países da África Austral, como a África do Sul e Moçambique. Ainda assim, contra todas as evidências e bom senso, a resposta dos países mais ricos do Mundo à descoberta da ómicron foi o encerramento das suas fronteiras aos viajantes de vários países africanos. Em vez de reconhecer o seu rigor e transparência da África do Sul, os países ricos decretaram o seu isolamento.

Na segunda-feira, 29 de novembro, Portugal suspendeu os voos para Maputo, mesmo sabendo que Moçambique registava, nesse momento, cinco novos casos de infeção, zero internamentos e zero mortes por covid. O escritor José Eduardo Agualusa, que embarcou no último voo de repatriamento de Maputo descreve uma situação de caos à chegada a Lisboa, num ambiente de apertado policiamento e "desrespeito total pelos direitos das pessoas e pelas regras básicas de distanciamento e higiene num contexto de pandemia".

Recusada a via da solidariedade e da defesa comum face ao vírus, os governos dos países ricos, dominados pelo calculismo e pela pressão xenófoba, erguem muros. Mas, como escrevem Agualusa e Mia Couto, os vírus não fazem distinção geográfica: "pode haver dois sentimentos de justiça. Mas não há duas pandemias".

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Deputada do BE

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