Opinião

A segunda volta após domingo

A segunda volta após domingo

O país poderia viver perfeitamente com duodécimos presidenciais por uns meses. No entanto, no dia em que todas as escolas encerram, contam-se 48 horas para que o país possa reabrir, largo e com carácter de excepção, para eleições. Perante a impossibilidade de adiamento das presidenciais - algo que podia e devia ter sido previsto à distância do bom senso e da antecipação premonitória - domingo será um dia de exigência.

O risco da subida da abstenção face ao peso específico do receio da pandemia só pode ser combatido com a efectiva capacidade de resposta na criação de condições de segurança para que a garantia de tranquilidade seja um factor decisivo de equilíbrio e representatividade democrática. Se votar é um direito para além de um dever, compete ao Estado acomodar os grupos de risco que temem pela sua saúde e pela saúde dos seus. Compete ao Estado cumprir os seus serviços mínimos.

Sem eixo e a uma velocidade bem maior do que duas rodas são capazes de atingir, vestimos de amarela a camisola do prémio da montanha, atirados que estamos para o número 1 mundial em casos de infecção por milhão de habitantes. Em número de mortes por milhão de habitantes, só somos superados pelo Reino Unido. É confrangedora a incapacidade para mexer com a máquina eleitoral à medida que os números adensavam. Como se todos pensassem no adiamento das eleições mas só tivessem coragem para o balbuciar, quase em surdina. Infelizmente, o voto em segurança nestas eleições não se resolve pela troca de uma compota com a vizinhança no vão de escada do prédio.

O voto não é um culto religioso para merecer a excepção das missas regulares. Organizar eleições no meio deste caos pandémico e deste gigantesco problema de saúde pública devia-nos ter obrigado a uma reflexão mais profunda e, inquestionavelmente, a uma maior mobilização de meios para o próximo domingo. Ninguém pode dizer com honestidade intelectual que seria previsível, há alguns meses, que chegássemos ao dia de hoje a bater recordes negativos de infectados e de mortalidade. Mas para que daqui a 15 dias não estejamos a debater se o dia das eleições teve um efeito tão negativo nos valores da pandemia em Portugal como o último Natal ou a última passagem de ano, vamos precisar de muito mais do que sorte.

Aqui chegados, a segunda volta serve-se após domingo. Por maior que possa ser a abstenção, a reeleição de Marcelo à primeira volta dificilmente estará em perigo. Se pode haver "um antes" e "um depois" das eleições nos números da pandemia, certo é que haverá muita pandemia na percentagem de abstenção. Nesta ponderação de riscos, sejamos capazes de aproveitar a oportunidade que a democracia nos dá para, neste domingo, rejeitarmos liminarmente os seus novos, perigosos e inimputáveis inimigos. Votemos.

Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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