Opinião

Angola: a vitória é bipolar

Angola: a vitória é bipolar

À terceira, perante suspeitas de que nem tudo terá decorrido na perfeição no processo eleitoral angolano, a UNITA não deverá levantar (apesar de alguns assomos e vozes) a bandeira da fraude. Se o fez em 2012 e 2017, fazê-lo novamente em 2022, sem consequências, seria altamente lesivo para o histórico maior partido da Oposição. Se há cinco anos, sectores mais radicais do partido não aceitaram levemente que os lugares na Assembleia Nacional fossem assumidos pelo então presidente da UNITA, Isaías Samakuva - pelo contra-senso que representava a aceitação de assentos que tinham sido obtidos em eleições que reclamavam como fraudulentas - não seria agora que essas vozes se silenciariam.

O crescimento indesmentível da UNITA nas eleições angolanas de quarta-feira acarreta este duplo peso. Por um lado, é difícil sustentar a tese da fraude eleitoral quando a UNITA soma quase mais 435 mil votos e cerca do dobro da percentagem do MPLA em Luanda (ganhando também Zaire e Cabinda), sendo esta uma realidade pública e confirmada pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), duríssima para a história, ego e representatividade do partido do Governo. Por outro lado, com resultados globais mais apertados (apurados 97% dos votos, os resultados apontam 51% ao MPLA e 45% à UNITA), qualquer acusação de fraude eleitoral provocaria, em alguns sectores da UNITA, uma onda de protestos que dificilmente poderia ser controlada por Adalberto Costa Júnior e que, em última análise, dificultariam a verticalidade da tomada de posse na Assembleia Nacional, o normal decurso democrático do país e o crescimento da representatividade da própria UNITA na formatação de uma possível vitória eleitoral em 2027.

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No poder há 47 anos, a nova maioria absoluta do MPLA governará fragilizada por uma derrota esmagadora no centro nevrálgico do poder angolano e inclusa numa Assembleia Nacional absolutamente bipolarizada. Apesar da descida relativamente às eleições de 2017, João Lourenço consegue o seu segundo mandato e terá pela frente o enorme desafio de recuperar as expectativas de mudança que o início do seu primeiro mandato augurou, num contexto de vitória mas também de perda de força eleitoral do MPLA. Será grande a tentação de travar o crescimento da Oposição pela robustez histórica da sua implantação no terreno institucional e material do país. Assim como será tentador não promover mais transparência, mantendo o anátema da falência da separação de poderes em Angola. O desígnio de João Lourenço deverá ser o de promover a transição, ainda que o faça apenas para uma melhor versão do poder e da distribuição da riqueza do seu povo, correndo riscos dentro do sistema. Risco maior para o MPLA será, como se constata pelos resultados eleitorais, deixar que outra realidade se imponha.

*Músico e jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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