Opinião

Chega de vergonha

O episódio protagonizado por Ferro Rodrigues, repreendendo André Ventura pela excessiva utilização das palavras "vergonha" e "vergonhoso" em plena Assembleia da República (AR), é um exemplo do que não deve ser feito para sinalizar maus comportamentos e desmascarar fraudes.

O processo de vitimização é uma alavanca de protagonismo para qualquer demagogo. O presidente da AR, com toda a sua elevação e experiência política, sabe-o. Até porque essa percepção decorre da natureza das suas funções e das razões que o levaram a ser eleito. Daí que tenha faltado a Ferro Rodrigues, naquele momento de visível irritação, a moderação que todos os democratas têm que apresentar como cartão de visita no combate aos populistas: inteligência, "timing" e alguma dose de contenção.

Não é fácil. Cada vez mais, uma das questões do debate em democracia passa por saber lidar com questões tão dramáticas como a demagogia extremista, o recrudescimento do fascismo, o negacionismo das alterações climáticas ou os crescentes episódios de racismo de cor ou de género. Para além da carta, é fundamental que atentemos ao envelope. A indústria de fake news ao serviço dos piores interesses da história não quer saber da condenação da humanidade. Pelo contrário, alimenta-se e multiplica-se pela desinformação, mentira e sentimento de pertença das futuras vítimas. A incapacidade do sistema em cuidar das suas franjas, ostracizando-as para uma periferia política onde não encontram respostas senão no discurso populista da "vergonha", não pode ser potenciada pela vontade de repreender moralmente um mentiroso. Não há moral que se ensine a um demagogo.

Ao contrário de Ferro Rodrigues, António Costa já parece ter percebido. A forma como confrontou Ventura com sentido de humor e relativização, expondo-o às suas próprias contradições, pode ser usado como manual de utilização de gelo no inferno. Fosse a Comunicação Social e a opinião pública tão escrutinadora às mentiras de Ventura como foi para com a roda à Livre de Joacine, saber-se-ia que não há memória de tanta mentira em tão pouco tempo. Em meia dúzia de meses, de "Basta" a "Chega", o deputado dá literalmente sumiço ao programa político pelo qual foi eleito, defende coisas radicalmente diferentes relativamente ao SNS num abrir e piscar de olhos, dá a cara por valores opostos aos que defendeu na sua tese de mestrado, retira aproveitamento político sem qualquer pudor de uma manifestação das forças de segurança, está envolvido numa eventual fraude de assinaturas na constituição do seu próprio partido e lida com acusações de ilegalidades pelos seus fundadores, usa truques venenosos na AR sobre a questão dos coletes policiais, lança atoardas ridículas sobre os "precários do Governo", não explica de onde veio tanto dinheiro para uma campanha com tão baixo orçamento e tanta propaganda nas ruas. Só com informação crítica se combate a falta de vergonha quando nos servem tanta mentira, vazio e veneno.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Músico e jurista

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