Cimento líquido

Contenção para que te quero

Contenção para que te quero

Imaginemos que o movimento Black Lives Matter vivia agora mais preocupado com o apuramento da cor do que com a violência dirigida às pessoas negras. O sentimento que trespassa na "Carta aberta às televisões generalistas nacionais", assinada por algumas dezenas de pessoas conhecedoras da largura e dimensão da palavra liberdade, é de estranheza, estupefacção e desconforto.

É triste e paradoxal para quem lê, face às expressões usadas e ao subtexto. Hipótese haverá que algumas delas tenham assinado de cruz, um tratado de confiança em alta, tendo em conta a boa companhia de outros subscritores e algumas legítimas preocupações relativas aos limites da Comunicação Social neste tempo de vertigem noticiosa e "voyeurismo" acrescido. Partilhando algumas preocupações gerais da carta aberta, detesto a forma e abomino o método.

A carta pede responsabilidade mas não mostra responsabilidade alguma, critica a "obsessão opinativa" mas não hesita em opinar. Descarta o essencial. É, globalmente, injusta para a cobertura que a maioria das televisões fez da pandemia, esquecendo o esforço dos seus jornalistas e profissionais, faz mira à televisão pública e acerta ao lado. Não é preciso pedir. O momento pandémico exigiu momentos de "contenção" e apuro a todas as televisões. Assistimos a momentos proto-ecuménicos, diatribes opinativas, egos à solta e agressividade, alguma confusão instalada? Claro. O país foi barriga de aluguer e engravidou de especialistas em saúde pública. Sim. Mas, globalmente, assistimos a desinformação, falta de carácter, servilismo? Não me parece. Num momento particularmente difícil, repleto de dúvidas e temores, tivemos um jornalismo livre, esforçado e responsável.

Em detrimento de condicionar e criticar a liberdade de imprensa, urge o debate sobre os seus grandes desafios. Desde logo, porque não estamos assim tão mal: Portugal está em 10.º no ranking dos países com maior liberdade de imprensa em todo o Mundo (dados da "Reporters Without Borders", organização que avalia a liberdade de imprensa em 180 países), subindo lugares desde 2015, deixando Alemanha, Espanha, França, Reino Unido, Itália, EUA para trás. A pugna deveria ser para nos aproximarmos da Noruega, Finlândia ou Dinamarca, residentes no top 3. Depois porque as grandes questões são outras e, essas sim, dramáticas para o jornalismo livre: as "fake news", as tentativas de ingerência chinesa e russa na contra-informação e influência da geopolítica mundial, a desinformação nas redes sociais, a propriedade intelectual, o populismo e o discurso de ódio da extrema-direita na demonização da imprensa livre, a segurança dos jornalistas, o desemprego, os baixos salários e desqualificação das redacções, o concentracionismo dos grandes grupos de comunicação, a independência editorial face à dependência económica dos grande grupos económicos, a investigação jornalística, um dos pilares da democracia, em falência por falta de recursos. Sobre isto, sobre o essencial, nada.

Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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