Opinião

A "boca" da ministra

Apesar da época bastante propícia a dormências, há quem não admita passar o Natal sem uma boa polémica, numa espécie de surto que abale as frutas cristalizadas e aqueça o réveillon para o ano que aí vem.

Um bolo que se transforma em bola de neve. A nova ministra da Saúde parece ser uma das convivas predilectas quando pensamos em animação viral para épocas de paz e amor instauradas por decreto.

Enquanto equaciona "todas as fórmulas" - caso permaneça o desacordo e a falta de consenso com os enfermeiros -, Marta Temido não anestesia os outros profissionais da saúde. Pelo contrário. Abre uma guerra, a corte de bisturi, com os médicos anestesiologistas à boleia de uma "boca" à velocidade de 500 euros/hora. Surpreendente, não fosse esta ministra a mesma que, poucos dias antes, pedira desculpa aos enfermeiros após considerar que encetar o diálogo com a classe grevista seria beneficiar "o criminoso, o infractor". Por melhores que sejam as intenções da ministra, uma anestesia para contenção verbal até era coisa para não ter preço.

A justa luta dos enfermeiros vem de longe e está para durar: os três pré-avisos de greve mantêm-se e são suportados por recolhas de fundos dentro do sector. A carência de médicos anestesiologistas é já ancestral: de acordo com os Censos de Anestesiologia do ano passado, o SNS vivia com 541 médicos a menos. Entre Janeiro e Outubro, o Infarmed indeferiu 391 pedidos de autorização dos hospitais para a utilização excepcional de medicamentos inovadores no âmbito oncológico (em absoluto contraste com os 96 indeferimentos de 2017). Perante tantas doses de realidade sem sombra de anestesia, porque escolhe esta ministra o caminho da especulação? A hipotética recusa por parte de um anestesista (requisitado pelo Centro Hospitalar de Lisboa Central ou por uma empresa de prestação de serviços) em trabalhar por 500 euros/hora na Maternidade Alfredo da Costa é uma historieta repleta de dúvidas e insinuações que - mesmo a ser verdade - não passa de um caso singular com dezenas de justificações.

A greve dos enfermeiros nos blocos operatórios de cinco hospitais públicos, iniciada a 22 de Novembro, já adiou entre 5000 a 7000 cirurgias. Tantas pessoas que não podem continuar a ser tratadas com respostas de suspeição por parte do Estado. É precisamente esta enviesada ideia de um Estado mau e não protector que potencia a mentira oportunista da falência do sector público da saúde, tão conveniente para muitos. Convirá mesmo que os mais altos responsáveis governativos deixem os casos únicos para abraçar os casos exemplares.

Músico e jurista

*o autor escreve segundo a antiga ortografia