Opinião

A Coreia é a sua praia

A Coreia é a sua praia

A realização da cimeira em Singapura foi a verdadeira cedência de Donald Trump a Kim Jong-un. Foram-se avolumando, nas últimas semanas, sinais de que o presidente norte-americano não estaria pelos ajustes do encontro. Percebe-se agora a relevância e seriedade do plano de fuga: não há nada acordado neste acordo. Brindemos, então, à teoria do copo meio cheio ou meio vazio. Pessimistas dirão que todos os passos foram dados para o lado e a caminho de uma fotografia; optimistas dirão que foi o primeiro de muitos passos em frente com a meta à vista. Tudo em família, ambos tinham a ganhar. Trump ergue-se como o homem da paz e Kim como o homem do seu regime. Mútuo e historicamente legitimados e sem tiros, certificados a papel de boneco.

"Fogo e Fúria", fanfarrona prequela de guerra, "homem-foguete" ou o "velho demente". As palavras foram engolidas pelo tempo em nome de princípios gerais. No princípio era o verbo, a guerra foi de palavras. Depois de quase 70 anos de confrontos políticos após a Guerra da Coreia e 25 anos de tensão decorrentes do programa nuclear de Pyongyang, os líderes comprometem-se em quatro pontos: estabelecer novas relações bilaterais, combinar esforços para a paz nas Coreias, trabalhar para a desnuclearização da Península (nunca se referem à "desnuclearização completa e irreversível", adoptando-se a versão vazia de compromissos anteriores) e o repatriamento de prisioneiros de guerra ou desaparecidos em combate. Acordo de quatro pontos para o futuro em que o único ponto com nó diz respeito aos restos mortais de militares americanos a identificar desde o fim da Guerra da Coreia de 1950-53.

Pese embora o fascínio pelas praias da Coreia do Norte (numa "perspectiva imobiliária" podia ter "os melhores hotéis do Mundo" em vez de mísseis, disse), é difícil perceber como Trump não se acanha na legitimação do regime de Kim Jong-un com a moda do presidente dos afectos (Kim "ama o seu povo", o que "não me surpreende", referiu). Esta brusca compreensão por um regime que tortura, assassina e mantém cativos dezenas de milhares de presos políticos, com taxas de 30% de subnutrição em crianças com menos de 5 anos, está longe de significar que tenha sido subitamente assolado pelo respeito democrático pela autodeterminação dos povos. Jogo de espelhos. O proteccionismo económico de Trump podia ser assinado de cruz pelo regime de Pyongyang e vice-versa. Até pode dar certo. É enorme a possibilidade de duas personalidades autocráticas se respeitarem e admirarem por períodos tácticos de felicidade conjunta.

MÚSICO E JURISTA
O autor escreve segundo a antiga ortografia

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