Opinião

Bruxit, a verde-cinza

Os tribunais podem ajudar o Sporting, pela força das decisões, a virar uma página negra da sua vida. Ainda que alguns vejam páginas ardidas a verde-cinza e outros, minoria pujante, ainda as vejam arder em magníficos tons de verde. É assim nos mitos e é assim na realidade alegórica, controversa e popular. Se o povo é quem mais ordena nas assembleias-gerais, a vontade de mais de 71% foi clara: Bruno de Carvalho deveria cair.

Porém, até cair em desgraça vai um longo caminho que o processo judicial irá alimentar pela voracidade das imagens televisivas. A sensata decisão de excluir a prisão preventiva como medida de coacção, aguçará as rotinas daqueles que se preparam para seguir os seus passos nas apresentações diárias entre casa e o posto policial. Não há melhor caminho para o mito do que a exposição de um homem acossado e livre. Mesmo se for expulso do clube e ainda que alimentando desuniões em diferentes tons de verde, Bruno de Carvalho será a reserva (a)moral do Sporting. Até uma decisão do tribunal, um longo caminho sem indiferença. Para reforçar o mito ou para sepultar viúvas, só poderá ser um órgão de soberania a fechar o livro.

O desastre da detenção dominical do ex-presidente do Sporting é muito difícil de justificar na geografia do Estado de direito. E essa mancha sobrevoará um processo que tinha tudo, face à docilidade da prova, para ser exemplar. Durante cinco dias de uma detenção incompreensível, a ideia da inevitabilidade da prisão preventiva foi alimentada a carne para leão pelo perigo de continuidade da actividade criminosa e pelo perigo de fuga. Eram poucas, senão só essas, as atenuantes para ir buscar um homem a casa num domingo e para o manter detido durante alguns dias em que nem sequer foi ouvido. A ausência de "fortes indícios" que justifiquem a privação da liberdade são duas notícias opostas numa só: faz saltar a tampa da discricionariedade da detenção e mostra um juízo não condicionado à opinião pública. Haja justiça quando não se faz Direito.

Quando, com o Brexit em cima da mesa, a primeira-ministra do Reino Unido tenta controlar os danos no país e as demissões no Governo e Parlamento, nada mais faz do que honrar a vontade do povo e controlar as suas fronteiras partidárias internas até à destituição. Soubesse Theresa May que é mais fácil um Brexit do que um Bruxit. De nada importa que a saída de um espaço comum se faça através do voto democrático, pela imposição de maiorias instáveis ou pelo arrependimento. De pouco conta a vontade popular quando, após o incêndio, há uma terra queimada em tons de cinza que muitos percepcionam ser verde.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Músico e jurista