Opinião

Faz de conta que não foi

Faz de conta que não foi

Pode ser mortal a noção de que a última e derradeira esperança para o renascimento do PSD radica num líder condenado a perder eleições, gozando da bonomia de António Costa.

Para a hierarquia fáctica social-democrata, aquela que governa o partido nas entrelinhas, rei-morto-rei-posto. Para os sá-carneiristas, porém, pode não ser uma travessia assim tão terrível. Como Rui Rio recordava na sessão evocativa do 38.0 aniversário da morte de Sá Carneiro, há quatro décadas "os líderes perdiam eleições e não continuavam". Pode não ser uma ideia muito contemporânea, pode até tresandar a autodefesa pouco legítima. Mas a honestidade retórica de Rio será o seu "teste de contraste" na noite das eleições. Se a sua verdade antiga não for populista, corremos o risco de sermos atacados pelo pior dos populismos da falta de verdade moderna.

Ao primeiro assomo da hierarquia, há uma quantidade de pretensos libertadores que vestem o colete amarelo, à procura de fazer a democracia à custa dos democratas. Abdicar da liberdade é coisa intuitiva para quem manda, ajustando o poder do abuso ao poder que têm. Os exemplos mais básicos e grotescos eternizam-se, muito à conta da ideia de que todos os abusos são passageiros e que marcam nódoas que se apagam. Como se fossem recreações de verão, perdidas entre a canícula e as ondas rarefeitas, que no vai e vem não levam o futuro agarrado.

Tolera-se a praxe estudantil com a desculpa de que há sempre gente que se integra e gosta (sem querer saber de quantos se desagregam e definham), esquece-se os abusos nos Comandos porque faz parte da preparação para o teatro das operações (sem cuidar de saber da sanidade que qualquer manobra de risco requer), espanta-se o espírito temporário com os relatos dos maus-tratos praxistas na Escola Naval (mas a hierarquia do sofrimento e da dor ganha à massa cinzenta na escala dos burros), veste-se um colete amarelo de manifestante em formação, "do it yourself" à boleia do WhatsApp, esperando que no dia a aplicação não sofra um acidente de desencriptação. No fim, minimiza-se tudo. Pelo tempo que passou, pelo falso contraditório da falta de tempo para pensar na memória. Joga-se ao faz de conta que não foi.

Sobretudo para um líder que quer ressuscitar o paradigma de uma verdade antiga, não é perspicaz endireitar os tempos com "cinco Sá Carneiros" ao invés de "dez Salazares". Falha na comparação. Na sessão evocativa de Sá Carneiro, Rui Rio negou que tivesse havido fascismo antes do 25 de Abril. "Não era fascismo nenhum", assegurou. A ideia da idiopatia do fascismo, como um regime que nasce do nada e sem causa alguma, convoca o pior dos riscos. Convém mesmo não desvalorizar o passado.

Músico e jurista

*o autor escreve segundo a antiga ortografia

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