Opinião

Jogámos quase nada mas, enfim, esqueçamos isto

Jogámos quase nada mas, enfim, esqueçamos isto

O pontapé de saída para o Mundial nunca será dado num jogo inaugural, por menos bafienta que a cerimónia de abertura se revele ao Mundo. Muito mais no Catar, onde todo um espectáculo foi sendo traçado a amnésia e a tentativa de hipnose entre civilizações. Bem pode pregar Morgan Freeman mas a voz do divino só se consegue mesmo ouvir ao primeiro "sing-along" do hino, imagem colectiva de apoteose antes do árbitro apitar para o capital início de jogo.

E foi assim, uma vez mais, privilégio de quem não assiste, sentadinho no sofá, ao Mundial dos outros. Apurados e por direito, o verdadeiro pontapé de saída português só aconteceu frente ao Gana e durou uma eternidade em bocejo e ansiedade. Ganhámos, Ronaldo foi titular marcando no seu quinto mundial e, como tal, fechem a porta das críticas que o Uruguai já vem a seguir. Incompreensivelmente voltámos, após a excepção particular com a Nigéria, a jogar o futebol que nos acanha. Jogámos quase nada mas, enfim, esqueçamos isto.

A teoria do "agora-não-interessa" formulada pelo presidente da República não foi partilhada pelas autoridades cataris que, rezam as notícias, terão chamado o embaixador português no país para bem mais do que um encontro de preparação da ida de Marcelo ao emirado. O puxão de orelhas diplomático poderia ter o sortilégio de encontrar políticos portugueses em trânsito, obrigando-os a reconsiderar a vontade de assistir ao primeiro jogo da selecção, desse por onde desse. Mas não há forma de afastar o futebol deste indomável desígnio de torcer pela selecção nas bancadas, ainda que atestando, pela conivência, os interesses, vícios e jogos múltiplos de bastidores que presidem à atribuição da competição ao Catar. Ainda que, com suavidade, amacie a exploração laboral que envolve 6500 óbitos relacionados com a construção dos estádios na vigência da "kafala" ou garantia, o sistema onde os trabalhadores estrangeiros - sobretudo no sector da construção - têm o seu visto ou passaporte na mão dos empregadores que agem como seus verdadeiros donos e proprietários. Ainda que, pela presença, caucione positivamente as violações dos direitos humanos no emirado, que vão muito para além de uma mera questão de costumes.

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Sobre os augúrios. A ideia de que se vai confrontar o anfitrião com as notícias sobre a sua própria tirania são muito auspiciosas, mas ficam reféns de concretização. O "esqueçamos isto" converte-se em "vou lá para falar" e resume-se facilmente ao pouco que se consegue dizer. Se já é questionável a realização de visitas oficiais das mais altas autoridades da nação a países ditatoriais, nada consegue defender a necessidade da sua presença no exercício lúdico de torcer por Portugal nas bancadas de um jogo de futebol. Demasiado dispensável para que esqueçamos isso. Nada acrescenta, senão tibieza e ambiguidade.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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